Dilma: nas relações de Temer com EUA, há ‘continência de se mostrar submisso’

Em 6 de outubro, a Sputnik Brasil teve uma oportunidade única de entrevistar com exclusividade a ex-presidente brasileira Dilma Rousseff no decorrer da sua visita à Rússia. Durante a conversa, fizemos questão de abordar não só as questões internas, mas também as da agenda geopolítica internacional.

Para qualquer cidadão brasileiro, bem como para um observador externo, fica evidente que com a chegada do novo governo, na sequência do impeachment da petista Dilma Rousseff no ano passado, a estratégia brasileira no palco internacional passou por várias mudanças. A Sputnik Brasil falou com a presidente afastada para descobrir sua opinião sobre o tema.

Sputnik Brasil: Bom, e passando pela agenda internacional um pouco. Há duas semanas, Michel Temer participou de um “jantar” organizado pelo atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para os líderes de vários países da América Latina; o encontro foi dedicado à situação na Venezuela. A aliança com Washington no que toca a assuntos do continente sul-americano pode ser considerada segura? Como a senhora pode explicar o interesse elevado de Washington em relação à Venezuela?

Dilma Rousseff: Olha, Washington tem tido esse interesse elevado em relação à Venezuela há muito tempo, porque na América Latina, nessa região do mundo, se você considerar a produção global de petróleo, a Venezuela tem uma das maiores reservas do petróleo do mundo. Venezuela é um país bastante rico: tem terras férteis, a Venezuela é um país muito significativo na ordem da geopolítica internacional. O que é que acontece com o governo Temer? Quando eu disse que o golpe é para enquadrar a gente geopoliticamente, porque eu disse isso? Porque desde o governo Lula, passando pelo meu governo, nós tivemos uma atitude clara.

Especificando os principais pontos dessa “atitude”, Dilma destacou que o governo petista sempre deu “importância aos nossos vizinhos latino-americanos” e criou “espaços de articulação multilateral”, tais como a UNASUL e a CELAC, além do Mercosul que já existia. Em seguida, a ex-chefe de Estado brasileiro enfatizou os principais “fracassos” estratégicos da política externa do seu ex-companheiro na chapa.

“O governo Temer (além da gente ser pró-América Latina, nós somos a favor da África) assume e fecha as embaixadas na África ou diz que vai fechar as embaixadas na África. Por quê a África? Porque somos o maior país negro fora da África e, se você considerar as populações dos países africanos, somos a segunda maior do mundo depois da Nigéria. Então, o Brasil tem uma relação com a África que é de raiz, ou seja, integra sua nação. Então, a África era muito importante”, criticou.

Multilateralismo como prioridade está sendo questionado?

Entretanto, a petista deu um destaque especial às organizações internacionais que surgiram no período de governança do seu partido, elogiando, particularmente, o grupo dos países BRICS.

“Aí, vêm os países emergentes, notadamente os BRICS. Nós ajudamos tais países como a Rússia, a China e a Índia a construir os BRICS, posteriormente entra a África do Sul. Por que é que os BRICS são importantes? Porque os BRICS são afirmação do multilateralismo. Não vivemos em um mundo em que um país dá as cartas para que outros seguem que nem cordeiros. No caso, nós não estamos mais na época da Guerra Fria, em que os EUA consideravam a América Latina seu quintal. Nós não somos o quintal de ninguém. Nós somos uma nação que reconhece entre o concerto das nações seus iguais”, defendeu Dilma, falando com a Sputnik Brasil.

Evidentemente, a senhora ex-presidente expressou uma certa preocupação com que as conquistas do seu governo, inclusive as no palco internacional, sejam prejudicadas pelo “projeto neoliberal”, que veio ao poder na sequência do seu afastamento.

Venezuela ‘na mira’ da onda neoliberalista latino-americana?

Falando nomeadamente da postura do gabinete de Temer em relação à crise na Venezuela e às declarações bem ousadas do líder estadunidense em respeito a esse assunto, a Dilma não poupou palavras.

“O governo Temer, em relação à Venezuela, tem uma atitude absolutamente equivocada, porque não é só essa ação de lado Trump, parece que há continência aí… de se mostrar submisso. É sobretudo o fato que ele aceitou uma ação conjunta com os EUA de tropas na Amazônia, coisa que nunca foi aceita no Brasil, nem na época de ditadura. Qual é essa visão? Essa visão é uma visão antidemocrática, de cerco à Venezuela, visão que já se provou completamente equivocada nas avaliações que os EUA fizeram das oposições, por exemplo, na Síria, achando que eram oposições democráticas, e eram oposições que tinham organizações terroristas dentro”, especificou a ex-presidente.

SB: Mas. para a senhora, há uma ligação direta entre seu impeachment e aumento da pressão contra a Venezuela?

DR: Não, […] há um ambiente, não é uma ação direta assim. O que foi para cá, é um ambiente que se cria na América Latina de avanço das forças de direita. No caso da Venezuela é gravíssimo. Por quê gravíssimo? Porque vai dar a guerra civil. Vai dar a disruptura. E ao dar guerra civil, eles estão levando a guerra para um continente que tem mais de 140 anos sem guerra, é isso que estão fazendo. E é irresponsável da parte do presidente atual ilegítimo Temer, que ocupa o Palácio, não ter protestado e não ter dito que ele é contra intervenção militar. Eu não estou falando isso por paranoia, porque Trump foi ao público que cabia intervenção na Venezuela, assim como disse que ia revogar todo o acordo com Cuba.

SB: Qual é a razão principal deste avanço de direita do qual a senhora está falando?

DR: Porque a América Latina, ela nadou contra a corrente. […] A América Latina reduziu a desigualdade no tempo em que a desigualdade crescia em todo o mundo. Você olha que a financeirização nos EUA e na Europa leva a duas coisas complicadas. Leva a um aumento da desigualdade, uma estagnação de salários, uma redução dos investimentos em ciência e tecnologia, isso mais nos EUA que na Europa. Como consequência disso, o que é que acontece com as pessoas quando veem que durante muito tempo suas demandas não são atendidas? Elas ficam descrentes dos governos, elas ficam descrentes da participação política.

Como exemplo de tal tendência, a política citou um dos maiores eventos da política europeia dessa década, ou seja, a saída britânica da União Europeia. Na opinião de Dilma, é uma evidência clara da desconfiança e indignação expressa pela população do Reino Unido em relação às estruturas europeias em meio ao crescimento de desigualdade na respectiva região do mundo.

Segundo a ex-presidente brasileira, tais fenômenos como estagnação de salários, trabalho precário, a precarização do trabalho é “uma coisa gravíssima que ocorre na Alemanha, que ocorre na França, com legislações específicas para isso”. Ou seja, na Europa há cada vez mais descontentamento. Porém, esse fenômeno, de acordo com a política, não teve a ver com a América Latina por muito tempo.

“Então, uma das razões é que a América Latina não tinha isso. Era, vamos dizer, estava fora de compasso. Estava tocando uma música que não era a música da orquestra”, adiantou.

Dilma voltou a sublinhar que as forças neoliberais que a sucederam, não tendo podido a derrotar em eleições gerais, construíram um “golpe” para “enquadrar” o país no respectivo paradigma político, o Brasil social, econômica e geopoliticamente.

“E se para isso é necessário ferir a democracia, prejudicar o povo brasileiro e criar um retrocesso — não tem problema, eles encaram. Por isso é que 2018 para nós, o Brasil, é um momento de resistência e luta. Nós temos que derrotar esse programa neoliberal, a melhor pessoa para fazer isso é um líder brasileiro comprovado e testado, porque o Lula não precisa de falar: ‘Vou fazer.’ Ele fez. Ele saiu do governo com 90% de aprovação, então, por isso é que eles têm um medo pânico do Lula, é isso que eles têm”, afirmou a ex-presidente com ar otimista.

Ex-presidenta revela por que esquerda no Brasil não forma coalizão unida

Sputnik Brasil: Então, continuando o tema da política interna brasileira, queríamos saber: por que não vemos no Brasil uma grande coalizão de esquerda, como forma de resistência ao atual modelo implantado pelo governo que a senhora presidenta contesta?

Dilma Rousseff: Primeiro eu te respondo assim: eu só conheço dois lugares no mundo onde tem uma ampla coalizão de esquerda. Um é Portugal, e o segundo é Uruguai. Não conheço uma coalizão de esquerda na França, não conheço na Itália, não conheço na Alemanha, muito menos nos EUA, e quase em nenhum país da América Latina. E este é o problema sério da esquerda brasileira. Agora, eu queria te destacar uma coisa: pode não ter no primeiro turno, mas tem no segundo. Não se cria frentes porque eu resolvo criar uma frente. Todos os países que criaram frentes em que a esquerda teve uma participação relevante criaram porque as condições históricas permitiram que esses partidos, os diferentes partidos existentes, tivessem consciência da importância de lutar unidos.

Contudo, não poderia deixar à parte as recentes perturbações sofridas pelo respectivo partido, que, porém, na opinião da ex-presidente, foram criadas de modo planejado e politicamente motivado pelos “construtores” do impeachment. Entretanto, disse a política, essa estratégia parece estar a falhar.

“Veja você que no auge da crise, quando eles estavam me tirando do poder e perseguindo o PT e o Lula, nós ainda fomos o partido com maior apoio popular. E ao contrário do que eles esperavam, porque eles esperavam não só me tirar, e destruir o PT, o Lula e todo o mundo, o PT passou a crescer para 19% dos votos. Quanto têm os demais partidos? Cinco. Quantos mais temos partidos de esquerda? Um”, afirmou ela em uma conversa exclusiva com a Sputnik Brasil.

Todavia, Dilma manifestou que seu partido é alguém que não atuou apenas sozinho, mas “sempre fez uma grande frente de esquerda”, especialmente nos segundos turnos das eleições presidenciais, quando o apoio dos aliados é crucial.

Analisando ainda as razões do enfraquecimento dos movimentos de esquerda em todo o mundo, Dilma sublinhou as dificuldades “de raiz” originadas pelas “rupturas entre os partidos comunistas, entre os partidos socialdemocratas e partidos socialistas”.

“Agora, eu acho que as rupturas começam a ocorrer menos por isso e mais pelo fato que certo segmento dos partidos socialistas ou socialdemocratas são cooptados pelo neoliberalismo e passam a ter posições neoliberais muito fortes, apesar do nome ter este componente. Então, eu acho que mudam os motivos”, resumiu.

Fonte: Site Sputnik Brasil

 

 

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