Matheus de Morais: Ser agredido e detido por PMs foi um dos piores momentos da minha vida

Não, eu não queria me expor dessa forma, mas não tenho como evitar tudo isso. Foram muitas pessoas tentando saber o meu paradeiro, muitas outras me seguindo, muitas outras me ajudando, outras tantas acionando advogados e seus familiares que fazem parte da PM, que acho necessário falar sobre isso aqui. Inclusive, sou muito grato por cada pessoa que tentou me ajudar ou me mandou mensagem!

Ontem, durante o Furdunço, próximo ao Cristo da Barra, estava na pipoca de Baiana System com uma amiga. Os policiais estavam extremamente agressivos com os foliões pipoca, muitos além de mim apanharam MUITO sem ter feito nada. O único motivo era: eles estavam afim de bater e acabar com a pipoca. Infelizmente eu fui um dos que apanhei muito.

Um grupo de policiais veio em sentido contrário a pipoca e empurrando e batendo em todos para abrir caminho. Neste momento, todos começaram a vaiar pela atitude abusiva e violenta deles. Logo em seguida, veio um segundo grupo de policiais que começou a bater em todo mundo, alguém do fundo atacou um garrafinha de água em algum dos policiais e eu estava na frente dele. Nesse momento, como não tinha pra onde ir, com medo de apanhar deles sem necessidade, minha única reação foi abaixar e colocar as mãos na cabeça. Prato cheio pra eles, né? Apanhei como se não existisse amanhã. Covardemente, 3 policiais me bateram MUITO, a ponto de um deles ir em direção a minha cabeça, a minha sorte é que eu estava com meu braço no lugar. Depois de muito me baterem, apareceu um 4 policial que me deu uma chave de braço e começou a me levar detido. Com isso, diversos amigos, colegas e camaradas apareceram para tentar conversar com os policiais, mas todo mundo entrou em pânico com medo do que eles poderiam fazer comigo. Eu só pedi que todo mundo ficasse calmo, porque eu estava bem. Fiz isso com medo de que eles agredissem todo mundo em volta (eles bateram em duas amigas minhas tb).

Fui encaminhado para o módulo do Cristo, onde tive uma conversa com eles, me apresentei, falei da situação grotesca que foi aquilo e eles a todo momento tentando mudar situação para que eu me confundisse. Disseram que me levaram para o módulo para me tirar da confusão pra eu não apanhar, que eu estava ali mas que seria liberado. Me disseram que eu estava agitado, pulando e por isso pode, perceba, pode ter acontecido alguma coisa. Me disseram que eu não fui agredido, que eu estava agitado e por isso que acabei me machucando. Ué, se eles não me agrediram como foi que minha mão inchou, meus dois braços estão roxos, minha costela, meu joelho e minhas costas estão roxas? A todo momento durante a nossa conversa eles tentaram mudar a situação. Fui liberado logo em seguida e tinha vários amigos me esperando na porta do módulo.

A pior parte não é a dor física, mas o sentimento de impotência, de injustiça, impunidade. Eu fiquei tão nervoso que não lembrei de gravar o nome ou a patrulha deles. E mesmo que tivesse gravado, nós sabemos muito bem como funciona o corporativismo da PM, a dificuldade que é em seguir adiante em situações como estas. A dor está na humilhação de ser levado detido de forma abusiva, porque não houve nenhum tipo de acusação, eles me levaram apenas porque quiseram me levar. A dor está na lavagem cerebral que eles tentam fazer em você, de forma cínica, ridícula e podre, zombando da sua cara. A dor está em ver todo mundo preocupado e chorando com medo de que eles sumissem comigo. A dor está em perceber que simplesmente por mais que façamos, essa violência bruta, estúpida e desumana ainda vai continuar. A dor está em saber que eles todos alegam terem família e que nós devemos entender o lado deles, mas não lembram que aqueles foliões ali tem família, relacionamento, amigos, vida acadêmica, vida profissional e que bater em uma pessoa, da forma como eles me bateram, pode levar a óbito.

Já passou da hora da Produção de Baiana sentar com o Governador e com o Comandante Geral da PM e tentar de alguma forma mudar essa situação. Capital político eles têm, são legitimados por toda high club artista/intelectual da cidade e do país. Não da mais arriscar a vida dos fãs dessa forma. Não adianta somente pedir amor no bloco e pregar a paz, ações políticas e institucionais são necessárias para assegurar a vida de todos aqueles que são fãs da banda.

Não da mais para ter tantos casos como estes, todos os anos, em todas as festas. O que vai ser preciso acontecer com um folião pipoca para se ganhar destaque na mídia?

Estou aguardando o vídeo da agressão e a queixa vai ser prestada. A patrulha vai ser descoberta, os nomes dos policias vão ser revelados e esse caso não vai passar assim barato. E isso não é por mim, porque graças a Deus eu sou muito amado e tenho muitas pessoas que podem me ajudar nessa situação, mas e todas as pessoas que não tem ninguém, que não são conhecidas, que não tem acesso aos espaços e contatos que eu tenho, como ficam?

A bala e o cassetete dos policias só encontram as pele pretas e o nosso corpo está cansado de apanhar!

 

Matheus de Morais integra o Núcleo Loreta Valadares da UFBA

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