Olívia Santana: A abolição e a prisão de Lula

Nesse 130º aniversário do fim do trabalho escravo e do começo do trabalho livre em nosso País, o cenário estampa contradições. Primeiro, que o racismo está aí entranhado nas estruturas sociais, naturalizando uma verdadeira mortandade de jovens negros, determinando os altos indicadores de feminicídio de mulheres negras, restringindo horizontes, oportunidades, pela seletividade da cor da pele. É implacável o legado dos 350 anos de escravismo. Segundo, que a recessão nos subtraiu milhões de empregos, após as manobras políticas sórdidas revogarem direitos trabalhistas, conquistados no passado de luta. E finalmente, a cena escabrosa do único trabalhador que chegou à presidência da República, Luís Inácio Lula da Silva, preso ilegalmente, sem prova de culpabilidade, sem o respeito ao devido processo penal. Um escárnio.

Lula é o nordestino que afrontou as regras do jogo da Casa Grande. Foi para o Sul, escapando da seca, num pau de arara. Tornou-se torneiro mecânico na mega São Paulo. E foi muito além disso. Contrariou a quase inescapável destinação dos seus iguais, a sina dos aprisionados ao servilismo do andar de baixo, e quebrou os grilhões que impedem que os filhos do povo cheguem ao planalto do poder! Conquistou com muita luta dois gloriosos mandatos presidenciais, tornou-se o maior líder contemporâneo da América Latina, influenciando o tabuleiro político Mundial. E ainda elegeu e reelegeu uma mulher presidenta, única experiência na história do Brasil.

A trajetória do retirante nordestino saiu inteiramente fora da curva. E isto, que deveria ser celebrado como uma nova perspectiva nos caminhos da Nação, foi tomado como um insulto pela velha casta, as oligarquias que ainda nutrem sentimento de desprezo pelos “de baixo”. Os juízes da “branca” “República de Curitiba”, com retórica rebuscada, já não usam malhetes, mas sentenças que soam como açoites no lombo do velho guerreiro nordestino insurgente, na tentativa de vergá-lo, mostrar-lhe quem manda.

Juridicamente, a condenação de Lula é uma aberração e um espetáculo de irregularidades e afrontas. O procurador Dallagnol tuitou que jejuaria para que Lula fosse preso. O presidente do Tribunal Regional da 4ª Região, Carlos Eduardo Lenz, disse que a sentença do juiz Sérgio Moro que condena Lula era “irretocável”, ao tempo em que disse que “não leu a prova dos autos”. As fortes ligações do juiz Sérgio Moro com o campo do PSDB, no Paraná, e o seu mal escondido ódio pelo ex-presidente, são sabidos, mas nem por isso ele e seus amigos do TRF-4, se declararam ou foram considerados suspeitos. A justiça foi claramente parcial no caso de Lula, como costuma ser com os negros e pobres. É desolador ver seus advogados agirem em sua defesa implorando o respeito à Lei, enquanto seus julgadores não a consideram, sem a menor parcimônia. Lula é o negro da vez.

Querem que esse “negro” seja castigado por ter escapado da senzala. E o condenam para coroar o golpe que deram em 2016, exatamente porque o povo o quer de volta como presidente. Por isso, com a condenação de Lula, condena-se o povo, impedido de votar em quem deseja.

Prendem-no. Porque já não é mais possível a velha prática de esquartejar e exibir cabeças e membros para servir de exemplo e paralisar o ímpeto dos que sonham com justiça social, a exemplo do que fizeram no passado, com Zumbi dos Palmares, nas Alagoas, com Tiradentes, em Minas Gerais, com os quatro heróis da Revolta de Búzios, na Bahia, que lutaram por uma República com trabalho livre e justiça social: Manuel Faustino, Lucas Dantas, João de Deus e Luís Gonzaga das Virgens. A ideia de aniquilar os insurgentes segue viva. A execução da ativista negra dos direitos humanos, a vereadora Marielle Franco, é mais uma brutal prova disso. Mas, só a luta pode nos levar à abolição estrutural do racismo, de tanta infâmia, tanta força bruta. Levante e lute, assim cantou Bob Marley.

 

Olívia Santana é pedagoga, secretária nacional de Combate ao Racismo do PCdoB e ex-secretária do Trabalho, Emprego, Renda e Esporte da Bahia do governo da Bahia

 

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