Sociedade reage em apoio a ator baleado por policiais em Salvador

O ator Leno Sacramento, integrante de um dos mais importantes grupos teatrais de Salvador, o Bando de Teatro Olodum, levou um tiro na perna de policiais civis, na última quarta-feira (13/06), durante uma abordagem em que teria sido confundido com um assaltante. Leno passava de bicicleta com um amigo pela Avenida Sete de Setembro, nas proximidades do Teatro Vila Velha, onde o grupo se apresenta, quando foi interpelado pelos agentes, que investigavam um roubo na região.

Segundo a versão que o amigo do ator deu aos jornais, os policiais, que estavam à paisana, ordenaram para que Leno parasse, mas ele não entendeu e, antes que esboçasse qualquer reação, levou o tiro. A vítima foi levada para o Hospital Geral do Estado (HGE) e, depois, foi com o amigo para a 1ª Delegacia de Polícia, localizada nos Barris, para registrar a notícia do crime.

O caso tem desencadeado uma discussão sobre o racismo institucional e o genocídio da juventude negra no Brasil. Leno Sacramento é negro, e está em cartaz com uma peça que trata, justamente, sobre o racismo, batizada de En[cruz]ilhada. O Bando de Teatro Olodum realizou uma coletiva de imprensa, na manhã desta quinta-feira (14), para denunciar o episódio e informar que vai acompanhar e tomar providências jurídicas cabíveis.

O ator chegou à coletiva de muletas e com uma camiseta da peça, mas preferiu não se pronunciar. Uma integrante do Bando abriu o evento com a leitura de uma nota do grupo, que faz duras críticas à polícia e à política de segurança pública, e pede aos governantes que revejam as ações de combate ao crime. “É guerra, é assim que devemos chamar”, diz o texto.

O advogado que acompanha a vítima condenou a ação da polícia e disse que esse não é apenas um caso isolado. “Toda essa situação tem origem em mais uma abordagem ilegal e desastrosa”, afirmou Cleifson Dias. O depoimento do ator à polícia deve acontecer nesta sexta-feira (15).

A coletiva também contou com a presença da ouvidora-geral da Defensoria Pública do da Bahia, a socióloga Vilma Reis, que lembrou da gravidade do problema da violência no estado, principalmente para a população negra, que é a maioria. Somente no último final de semana, 30 pessoas foram assassinadas na região Metropolitana de Salvador (RMS).

Vilma Reis também sugeriu que o advogado de Leno Sacramento recorresse à Justiça por meio de uma ação coletiva, de responsabilização do Estado, porque, segundo ela, os danos causados pela ação policial atingem a toda a comunidade negra. “A regra [do sistema de segurança pública] é de eliminação dos corpos negros”, finalizou.

Diversos grupos e coletivos relacionados à luta antirracista também estiveram na coletiva para prestar solidariedade ao ator. Leno Sacramento integrou montagens de peças conhecidas do Bando de Teatro Olodum, como Áfricas, Cabaré da Raça e Ó Paí, ó.

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