Walter Takemoto: Caro Sakamoto, se o ovo é vida, Doria e ACM Neto estão destruindo vidas!

 

Em sua coluna da UOL do dia 8/8, Leonardo Sakamoto, companheiro de luta pela democracia e a liberdade, escreveu sobre o ato de repúdio realizado em Salvador contra a entrega do título de cidadão soteropolitano ao prefeito de São Paulo, o João Doria. Nesse ato quando os dois prefeitos e suas comitivas iam do prédio da Prefeitura em direção à Câmara Municipal, do outro lado da rua, manifestantes lançaram ovos, enquanto jagunços e P2 disparavam fogos de artifício, gás de pimenta e agrediam adolescentes, mulheres e homens, indiscriminadamente, em uma prática comum nos tempos em que Paulo Maluf foi prefeito e governador em São Paulo e o falecido, e de triste lembrança, ACM mandava e desmandava na Bahia. Não é nem preciso citar como agem os governos golpistas com o massacre que provocam contra qualquer manifestação que não seja a organizada pelos financiadores do golpe e seus aliados.

Sakamoto diz que entende a indignação popular, mas que não pode concordar com esse tipo de ataque, com ovos, e indo além diz que “atinge em cheio princípios democráticos e republicanos. E quem não segue princípios, não raro, se iguala àqueles que quer combater”.

E diz ainda o colunista que esse tipo de ataque interdita o debate e separa o “nós e o eles”, e que “a principal casca que precisa ser quebrada, hoje, é esse muro que impede que um grupo veja o outro em sua totalidade e em sua humanidade. Aumentando, assim, o foco para além daquilo que seus líderes querem que eles vejam”.

A preocupação do Sakamoto com a importância de termos uma grande unidade da população para derrotar as forças do retrocesso que tomaram de assalto o poder e a partir de então estão destruindo direitos sociais e trabalhistas é justa, uma preocupação de todos e todas que estão nas ruas desde 2014 lutando contra os que representam ameaças reais à democracia e à liberdade.

No entanto, tenho discordâncias da análise que faz do ato de Salvador, a chuva de ovos contra os dois prefeitos, e das lutas que temos travado na Bahia.

Alguém ouviu falar de “petralhas e bolivarianos” chutando cachorro em porta de supermercado por estar com uma fita verde e amarela no pescoço? Em alguma manifestação contra o golpe e suas medidas, alguém viu manifestantes do PT ou PCdoB agredindo uma idosa vestida com a camisa da CBF?

Não, essa foi a prática daqueles que foram às ruas apoiar o golpe, e outras coisas mais, e a violência deles ocorreu em vários lugares, de forma indiscriminada contra quem suspeitavam que fosse “petralha ou bolivariano”.

Nós nunca demos o troco na mesma moeda. Em alguns atos e manifestações realizados aqui em Salvador apareceram os jovens do MBL com cartazes defendendo o golpe. Em outras ocasiões, como no cortejo do 2 de Julho, pessoas apareciam segurando faixa pedindo a intervenção militar. Em nenhum momento usamos da violência para expulsá-los, apesar do legítimo desejo de alguns militantes de assim o fazê-lo.

Não queremos o “nós e o eles” Sakamoto, se o eles se refere à população desinformada, da periferia, que é a principal vítima do golpe aos direitos sociais, e que não se mobilizou contra o golpe dado e nem contra as medidas aprovadas, como a reforma trabalhista e a terceirização total, em decorrência do erro dos setores democráticos e populares de ter se afastado dos setores mais pobres da população, privilegiando o diálogo “republicano e democrático” institucional e do qual não fizeram parte os trabalhadores e o povo explorado e oprimido.

Se o eles que você cita é o ACM Neto, o Doria, os financiadores do golpe, aqueles que o viabilizaram, e a quadrilha que tomou de assalto o Palácio e sua vizinhança, então estamos em lados opostos sim, são nossos inimigos e assim devem ser tratados, pois com esses não existe diálogo possível.

Doria e ACM Neto, para ficar nas duas “vítimas” da chuva de ovos, representam o que pode existir de pior na gestão de uma cidade. Aprofundam a desigualdade social, a exclusão, perseguem aqueles que historicamente foram tratados como ninguém, os chamados invisíveis, expulsam e violentam os que atrapalham seus negócios com a especulação imobiliária, a apropriação do público para gerar lucros para os que sempre mandaram nas decisões das prefeituras quando essas estão nas mãos de seus representantes, como no caso desses dois prefeitos.

E exatamente no dia em que ocorreu a chuva de ovos, Sakamoto, mais um teto de uma escola municipal caía. E as escolas municipais de Salvador estão sem merenda, sem fardamento para os alunos, os professores estão há três anos sem reajustes, e o ACM Neto gasta dezenas de milhões com pacotes educacionais de empresas que querem a mercantilização do ensino ou então em contratos suspeitos com fornecedores de materiais didáticos que não chegam.

Sabemos que não se acabará com o golpe, ou com a exploração e opressão da minoria sobre a maioria da população, jogando ovos, estudamos a história, ao contrário de muitos que apoiaram o golpe ou que militam a favor da volta dos militares, e nem mesmo com manifestações e atos, mesmo quando reúnem centenas de milhares de pessoas.

Sabemos nós, Sakamoto, que o desafio que temos é parar a produção, ocupar as ruas e praças com milhões de homens e mulheres dispostos a lutar de fato, e sem tréguas, contra os financiadores do golpe e suas medidas. Construir um poderoso movimento de trabalhadores da cidade e do campo, com os excluídos da periferia, os marginalizados, a juventude negra que morre de morte matada, que lute por um projeto de sociedade radicalmente democrática, justa e igualitária, e tome as ruas e praças do nosso País enquanto não formos vitoriosos.

E nessa luta, Sakamoto, não serão ovos que serão lançados. E haverá, sim, o nós e os eles.

E como você estudou a história, talvez mais do que eu, sabe que existe a história e a sua evolução. Do lançamento do petardo de papel contra o Serra, evoluímos para o ovo, afinal um papel tem a precisão de cinco metros, o ovo de 30, e de metro em metro vamos avançando em nossa luta.

 

Walter Takemoto é educador

 

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