Alexandre Santini: Não põe corda no meu Bloco

Causou celeuma, nas bolhas da esquerda, a “descoberta” de que o PCdoB irá se apresentar eleitoralmente através de 2 novos aplicativos políticos: o “Movimento Comuns”, espaço para atrair e organizar novas lideranças e movimentos comprometidos com a liberdade e a democracia; e o “Movimento 65”, frente eleitoral que abrigará, sob a histórica legenda do Partido Comunista do Brasil, uma rede de candidaturas democráticas e progressistas nas eleições municipais de 2020.

Acredito que o movimento incomodou a setores da esquerda por aquilo que ele tem de melhor: acrescenta uma novidade ao cenário político/eleitoral de 2020, em meio a uma das maiores ofensivas ideológicas contra a esquerda no Brasil e no mundo, e tira das cordas do ringue uma das forças políticas que mais vem sendo vítima dos ataques da extrema-direita que assaltou o poder em nosso país.

A novidade nem é tão nova assim. O Partido Comunista do Brasil criou a Aliança Nacional Libertadora nos anos 30, já lançou candidaturas pelo MDB, legenda que abrigava a resistência democrática nos anos 70/80, participou da Frente Brasil Popular com Lula em 89, tem experiência na construção e participação em frentes em todo o país. Ou seja, nada que nunca tenha acontecido aqui ou não aconteça em outros países. A leitura da conjuntura é que estamos em um momento de ruptura democrática e sob uma cláusula de barreira que ameaça a existência e legalidade plena do PCdoB. A nova tática eleitoral responde a uma realidade concreta.

Os “críticos” abordam o tema de forma enviesada. É sempre esse papo que se está “abandonando” a foice e o martelo, etc. Mas a tática é semelhante à experiências de Partidos Comunistas ao redor do mundo, que compõem ou dirigem frentes eleitorais, ou seja, se apresentam eleitoralmente sob outros nomes, como a CDU portuguesa, a Frente Ampla uruguaia, a Frente Alternativa Revolucionária do Comum (ex-FARC) na Colômbia, a Fronte Gauche na Franca, o CNA na África do Sul, etc.

Ampliar radicalizando e radicalizar ampliando. Romper os muros e as bolhas que nos fazem rodar em círculos e falar para nós mesmos. Falar com o povo que se decepcionou com a esquerda, mas que está vendo o abismo ser cavado debaixo dos seus pés. Oferecer acolhimento e espaço para novas lideranças vindas de baixo. Se reinventar frente à uma nova realidade.

O mais antigo partido do Brasil, que em 2022 comemorará seu centenário honrando e exaltando sua história, seus simbolos, estatuto e programa, apresenta seu enredo para o desfile eleitoral de 2020. Pelo frenesi que criou nas fileiras das “escolas” coirmãs, parece que o samba é bom e tem tudo pra fazer bonito na avenida;).

 

Alexandre Santini  é gestor cultural, dramaturgo e escritor.

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