Alexandro Reis – A mão invisível de Moro: o nudes da operação lava jato

Para sustentar a manutenção do crucifixo nos espaços públicos, contrariando o princípio da laicidade estatal, o ex-presidente do STF, ministro aposentado Cezar Peluso, explicou que Pilatos relativizou a própria responsabilidade em nome de um suposto julgamento democrático de Cristo. Tratou-se de uma manobra covarde que garantiu a anuência do povo para oprimir e matar um homem inocente. Com este raciocínio, o emitente jurista arremata: “o crucifixo é uma advertência aos juízes e à sociedade sobre as consequências de um julgamento injusto”.

A história do pensamento político e funcionamento das sociedades ocidentais mostra que as elites constroem e subvertem leis e regras, conforme os interesses que lhes convêm. Neste quesito, o Brasil é um case de sucesso. O genocídio da população indígena, escravidão negra por mais de 350 anos, extermínio dos líderes da Revolta dos Búzios, degola e esquartejamento de Tiradentes, ditadura militar são alguns marcos do modus operandi da casta nacional dominante.

Na segunda metade do  século XVIII,  o fundador da economia clássica, Adam Smith, advogou pela existência de uma mão invisível promotora do equilíbrio e do ajuste permanente para a funcionalidade das transações em uma sociedade capitalista. Da teoria clássica se extrai que, mesmo sem querer, o interesse individual realiza o bem comum. Ocorre que as contínuas crises do sistema reclamam a ineficiência da mão invisível e exigem a intervenção estatal a fim de evitar injustiças e a sofreguidão do povo.

O The Intercept Brasil não só revelou os nudes obscenos da operação lava jato. As escandalosas combinações entre o então do juiz da 13ª Vara Federal de Curitiba e os procuradores do MPF, com objetivo de condenar o ex-presidente Lula a qualquer custo, mostram a orgia antiga de setores do sistema judicial brasileiro. Mas não é só isso.

Se sabe que a operação lava jato combate a corrupção dos políticos e de alguns empresários, mas a sua principal função é ser instrumento do mercado financeiro e da ideologia neoliberal. A tarefa primordial da operação era garantir a supremacia do mercado, reduzir investimentos e despesas correntes dos governos e canalizar mais dinheiro para os rentistas. Afinal, a mão invisível do próprio mercado resolveria todo o resto. Bastava inviabilizar as pretensões políticas das forças de esquerda.

A lava jato é a responsável direta pelo aumento do desemprego, aceleração da miserabilidade e recrudescimento do racismo. Ao destruir empresas, detonar empregos, criar instabilidades, os agentes da operação exercem papel crucial para  ampliação  dos efeitos da crise econômica mundial nos negócios do país. A tempestade perfeita é criada, de modo a formar a atmosfera propícia para aprovar as reformas em favor do mercado:  congelamento do orçamento por 20 anos, reforma trabalhista e previdenciária. Não era só condenar e prender Lula, o propósito mais importante era fomentar o ascenso da extrema direita, colocar em marcha acelerada a agenda neoliberal, mesmo com prejuízo da economia interna.

A lava jato operou um julgamento injusto. A mão invisível de Sérgio Moro corrompeu o processo e feriu de morte a legitimidade das decisões tomadas. Mas o mercado não aceitará ser derrotado.  Mesmo com as provas das tramas orquestradas no aplicativo telegrama, seus agentes disputarão narrativas, tentarão desqualificar as informações e confundirão a população, como fez Pilatos.

Por tudo isso,  a luta e unidade do povo é ainda mais necessária e urgente. A lava jato é muito mais opressora que a nossa vã consciência pode imaginar.

 

Alexandro Reis é secretário estadual de Combate ao Racismo do PCdoB/BA 

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