Banana de Bolsonaro prova que Brasil continua sendo o país do Vale Tudo

Mais de 31 anos separam a banana dada ao Brasil pelo personagem Marco Aurélio, vivido pelo ator Reginaldo Faria, na icônica novela Vale Tudo, transmitida pela Rede Globo (1988-1989), e a banana contra a liberdade de imprensa encaixada pelo presidente Jair Bolsonaro, neste sábado (8), em frente ao Palácio do Alvorada.

Ele reclamava que uma declaração dada por ele – que pessoas com HIV representam “uma despesa para todos no Brasil” – havia repercutido negativamente. Culpar o mensageiro não é monopólio do atual presidente, que precisa aprender que uma democracia sobrevive sem ele, mas não sem uma imprensa livre e forte.

Os contextos das bananas são diferentes, até porque Marco Aurélio estava fugindo do país e não teremos a mesma sorte quanto a Bolsonaro, que deve continuar causando estragos à República.

Ambos são conhecidos, contudo, por suas declarações amorais. E se o personagem fictício era acusado de montar esquemas para desviar recursos em benefício próprio, o mesmo pode ser dito do então deputado federal, com as denúncias de funcionários fantasmas, rachadinhas e o uso indevido de um Queiroz que pairam sobre ele e seus filhos.

A novela veio a público quando o Brasil vivia um momento turbulento de sua história, em meio a uma Assembleia Constituinte que tentava refundar a democracia após 21 anos da ditadura de rapina dos verde-olivas e seus apoiadores parasitas da iniciativa privada (alô, ministro Paulo Guedes, olha um exemplo de uso mais adequado do termo).

O fato da atriz Regina Duarte, que viveu Raquel Accioli, mãe da gloriosa Maria de Fátima (desculpe o trocadilho), em Vale Tudo, estar na mesma novela política de Marco Aurélio, digo, Bolsonaro, ao assumir a Secretaria Nacional de Cultura, ajuda deixar mais tênue o fio entre ficção e realidade.

A Nova República estava dando os primeiros passos em maio de 1988, quando a novela veio ao ar pela primeira vez – ela foi reprisada em 1992, 2010 e 2018. Hoje, ela está sendo velada de corpo presente após o contexto que deu sustentação à retomada democrática ter chegado ao fim.

No meio tempo, tivemos o impeachment de Collor e Dilma, manifestações de ruas e greves gerais, várias crises econômicas e escândalos – Esquema PC, Compra de Votos da Reeleição, Pasta Rosa, Mensalão, Trensalão, Lava Jato. E vivemos o bastante para vermos arautos do combate à corrupção acreditarem que estão acima da Constituição, dobrando a interpretação da lei à sua conveniência política.

Vale a pena ser honesto no Brasil? – era a grande pergunta da novela. A reflexão sobre a atualidade dessa questão deve ser feita à luz da repercussão insuficiente junto à sociedade da tentativa do presidente indicar o próprio filho ao cargo de embaixador nos Estados Unidos. “Lógico que é filho meu. Pretendo beneficiar um filho meu, sim. Pretendo, está certo. Se puder dar um filé mignon ao meu filho, eu dou”, afirmou Bolsonaro, durante uma live, em julho de 2019. A nomeação não prosperou.

 

Artigo do jornalista Leonardo Sakamoto. Leia a íntegra do texto no post do blog:

https://noticias.uol.com.br/colunas/leonardo-sakamoto/2020/02/09/vale-tudo-marco-aurelio-ops-jair-bolsonaro-da-uma-banana-ao-pais.htm

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