Carolina Maria Ruy: Tabata está numa boa?

No programa Em pauta, da Globonews, de 17 de julho de 2019, a jornalista Eliane Cantanhêde se empolgou e deixou transparecer um sorriso de satisfação ao dizer que, a despeito das punições aplicadas pelo PDT por causa do voto a favor da reforma da previdência, contrariando a determinação do partido, “Tabata está numa boa”.

Na página 2 da Folha de S.Paulo de 18 de julho de 2019, a jornalista Mariliz Pereira Jorge, que há pouco tempo teve o disparate de comparar Bolsonaro a Getúlio Vargas, escreveu, com ares de triunfo, que Tabata incomoda a velha e bolorenta esquerda.

Estas 2 manifestações, a pretexto do episódio envolvendo a deputada do PDT, Tabata Amaral, na votação da reforma da Previdência, dizem muito sobre o que a Casa-grande brasileira pensa sobre a esquerda, com seus partidos e movimentos sociais.

Não me importa a vida parlamentar da jovem deputada. Não cai bem, estando fora do partido que a elegeu, julgá-la, nem mesmo pelo seu voto antissocial. Até porque o julgamento sobre ações, por vezes incoerentes, de parlamentares é outra conversa. Uma conversa permeada por traumas recentes e pelo que quer que seja a Realpolitik.

Interessa-me aqui refletir sobre o simbolismo que tem recaído sobre Tabata.

Com sua imagem que remete às chamadas minorias –mulher, jovem, filha de trabalhadores humildes–, o voto da deputada dá ao debate sobre a reforma da Previdência um verniz simbólico de inovação, modernidade e caráter humanitário. Mesmo tratando-se de uma reforma liberal, pautada pela lógica da redução em investimentos sociais.

Ao afirmar que votou por sua “consciência”, e não pela indicação do partido, a deputada ostenta uma imagem de independência da “bolorenta” velha política, aquela condenada por Jair Bolsonaro. Afirma-se como alguém que não se dobra a partidos, esses sujos, contaminados pelo mecanismo de Padilha e denunciados por Deltan Dallagnol, o procurador cujas crianças adoraram o Beach Park. Não importa que Tabata tenha dado de ombros a uma decisão coerente com a história do Partido Democrático Trabalhista. Tampouco importa o trabalhista do nome de seu partido. Aliás, o partido, neste caso, parece ser apenas um mal necessário para alçar o posto parlamentar sem o bolor das maldades dos partidos de direita. O que importa à Tabata e seus entusiastas é a sua “consciência” moldada em Harvard e alimentada por Jorge Paulo Lemann.

Desta forma, o simbolismo de Tabata é o do triunfo do indivíduo sobre o coletivo. Triunfo da meritocracia, do self-made women, sobre o conjunto da sociedade. Deem uma olhada nos sites dos movimentos que a deputada lidera, Renovabr e Acredito. Eles estão muito mais alinhados com a postura do Partido Novo, do que com os “velhos” partidos e organizações da esquerda. Não é de espantar, portanto, que a direção do Renovabr tenha tantos representantes justamente do Partido Novo.

Este é o perfil progressista que interessa ao status quo. O perfil mudar para manter. Interessa ao João Doria, por exemplo, o ex-prefeito de São Paulo, que em 2017 chamou trabalhadores grevistas de vagabundos e agora não esconde seu encanto por Tabata.

Não interessa ao estado das coisas, esse estado de aprofundamento da desigualdade social, aquela esquerda bolorenta que não nos deixa esquecer dos pobres, que andam em ônibus bolorentos, que lotam o sistema de saúde com suas doenças, que morrem de fome e de frio, que muitas vezes não chegam a se aposentar e quando chegam não param de trabalhar porque, enfim, quem consegue viver com apenas um salário mínimo? Pra que isso se pode-se parecer legal perto de uma “esquerda” limpinha, com cara de sede do Google, que traz na cartola as soluções mágicas que nenhum velho político havia imaginado?

Como já disse, não me importa a vida parlamentar da jovem deputada, nem coloco em questão seu caráter ou suas intenções. Meu ponto é, tomando como exemplo os comentários de Cantanhêde e de Mariliz Pereira Jorge, chamar a atenção para como a velha classe dominante, sempre pronta a defender seu status, se aproveita de cada situação para defenestrar a esquerda organizada, enraizada, que tem história e que, de fato, ameaça seu sistema de privilégios.

Esta velha classe, de espírito colonial e escravocrata, que de tempos em tempos sucumbe à obsolescência programada, à constante exigência do capitalismo pelo “novo”, e se repagina por fora a fim de manter tudo como está.

 

Carolina Maria Ruy é jornalista

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