Cientista político prevê PT e PSDB no 2º turno da Eleição 2018

Entrevista do jornal GGN

Há um padrão eleitoral em vigor no Brasil há pelo menos 12 anos. Ele foi captado pelas estatísticas na eleição de 2006, com o eleitorado, grosso modo, dividido em torno de um partido de centro-esquerda, o PT, e um partido de centro-direita, o PSDB. Este comportamento se repete nas urnas em 2010 e 2014. O Norte-Nordeste, onde há concentração de pessoas em situação socioeconômica mais vulnerável, tem preferência pela legenda de Lula. Já no eixo mais ao Sul, com destaque para o maior colégio eleitoral do País, São Paulo, a classe média mais “independente do Estado” domina e transfere o favoritismo aos tucanos, atualmente representados por Geraldo Alckmin.

Todo padrão (a polarização PT x PSDB) tem uma causa (a desigualdade social e econômica da população). Se a causa se repete, a tendência é que o padrão também se repita.

É com esta teoria simples, mas ancorada nas estatísticas, dados eleitorais, análises de conjuntura e estudos de experiências internacionais que o cientista político e pesquisador Alberto Carlos Almeida prevê, no livro “O Voto do Brasileiro”, que PT e PSDB chegarão ao segundo turno em 2018, a despeito da dificuldade dos petistas com a situação jurídica de Lula – o líder nas pesquisas de opinião até o momento – e do desafio de Alckmin ante Jair Bolsonaro (PSL), segundo colocado nas sondagens.

Almeida recebeu a reportagem do GGN em seu escritório, em São Paulo, na tarde de quarta-feira (8), para discutir a conjuntura atual e as candidaturas em jogo. Ele não trata a teoria do livro como verdade absoluta, ao contrário. Mas se a análise de Almeida estiver correta, o PT chegará ao segundo turno independentemente de quem venha a ser o substituto de Lula. Só com os votos do Norte-Nordeste, o ungido – seja ele Fernando Haddad ou outro nome – partirá do patamar dos 20% dos votos de todo o território nacional.

Confira os principais trechos abaixo:

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No livro “O Voto do Brasileiro” você faz um esforço para identificar padrões e suas respectivas causas que se repetem desde a eleição de 2006, numa tentativa de tornar as próximas eleições mais previsíveis. Que causas e padrões são esses que você identificou?

Alberto Carlos Almeida: No livro eu faço uma previsão de segundo turno entre PT e PSDB. Não é uma previsão que eu vou ficar batendo o pé, dizendo que ‘vai ser isso, vai ser isso’. Não é assim. Eu acho o mais provável. Pode acontecer o menos provável, um ou outro, ou os dois não irem ao segundo turno. Mas eu creio que o mais provável seja isso. 

O livro foi lançado em maio, mas o processo é lento. Os originais foram entregues à editora em novembro do ano passado. É um trabalho científico. É minha crença – e dos cientistas, de um modo geral – de que o conhecimento científico funciona.

O que nós temos é um padrão de 3 segundos turnos, 2006, 2010 e 2014, nos quais o PT foi mais votado nas regiões mais pobres do País, e o PSDB nas regiões menos pobres do País, nas regiões de classe média, se assim você preferir. Algúem pode dizer que no Brasil são só 3 casos, que é muito pouco [para declarar que é um padrão]. Mas aí eu me escoro, também, nos resultados eleitorais de outros países. Tem um capítulo inteiro do livro dedicado a isso. Pego 6 países e 25 eleições nacionais, as mais viáveis para se ter mapas eleitorais de boa qualidade porque a informatização é mais recente. Então os casos brasileiros são multiplicados por casos de outros países.

Por exemplo, na Alemanha, há 69 anos que você tem alternância no poder entre um partido de centro, ou coligações de partidos de centro-direita, CDU e CSU, e o SPD, de centro-esquerda. Eles são bem votados nas mesmas regiões. O SPD é bem votado nas regiões mais pobres da Alemanha, e os conservadores, de centro-direita, nas regiões menos pobres da Alemanha. Basicamente é isso. 

Dado que o eleitorado tende a se compotar dessa maneira, o próprio eleitorado vai lá e dá um favoritismo, as forças políticas vão lá e se alinham em torno do eleitorado. É o eleitorado que rege o alinhamento das forças políticas.

Quais são as causas desse padrão de polarização entre PT e PSDB?

Almeida: Isso não acontecia antes de 2002. Em 2002, o PSDB foi muito bem votado no Nordeste e o PT até foi vitorioso em São Paulo. Foi o primeiro governo Lula que segmentou o eleitorado dessa forma.

Basicamente, o primeiro governo Lula atendeu demandas do eleitor pobre. (…) houve uma expansão do Bolsa Família e outros programa sociais. Quando ele [Lula] fez isso, trouxe para ele o voto dos mais pobres e afastou dele o voto dos menos pobres. Os mais pobres se identificaram com o PT, e os menos pobres ou a classe média escolheu o anti-PT, no caso, o PSDB. Esse é o principal motivo.

Eu digo que hoje no Brasil a gente discute muito a importância do Bolsa Família nas redes sociais, [imaginando que as] redes sociais vão influenciar a eleição. E todo mundo esquece de uma coisa muito mais prosaica: o Bolsa Família influencia as eleições mais do que as redes sociais, porque é um programa cuja simbologia é clara. Tem quem é a favor e tem quem é contra. 

Se o padrão de votação vai se repetir, nós vamos confirmar depois da eleição. Mas é possível dizer que as causas que criaram esta polarização se repetem?

Almeida: Eu diria que, sim, a gente vai ter a certeza depois da eleição, mas se você olhar as pesquisas de hoje, elas já indicam isso [que as causas se repetem]. Quando você pega toda a região Nordeste, pega a votação do Lula, que seria o candidato mais conhecido do PT, ela chega a 58% nas pesquisas em todo o Nordeste. Em São Paulo, a votação dele fica em 20%. A soma dos candidatos que seriam de centro-direita, Alckmin e Bolsonaro, em São Paulo, dá algo em torno de 40%. Então as pesquisas já indicam isso. Já refletem que está em funcionamento esta estruturação que eu identifiquei e comentei no livro.

Muita gente diz que esta é a eleição do petismo versus anti-petismo e, talvez por isso, colocam Bolsonaro como uma figura ameaçadora, pois ele, em tese, acumularia essas forças anti-petistas. Mas a eleição de 2014 já não foi um pouco sobre isso?

Almeida: Temos alguns autores [como David Samuels e Cesar Zucco] que chamam atenção para o PT e anti-PT, que o Brasil está segmentado assim. Meu livro é semelhante, mas eu chamo isso de PT e PSDB. Por enquanto, no Brasil, o anti-petismo é o PSDB ou vem sendo expresso pelo PSDB, do ponto de vista eleitoral em voto para presidente. O que aconteceu: o Bolsonaro captou uma parte relevante e importante desses votos. Então eu diria que a soma dos votos do Bolsonaro e do Alckmin é o anti-petismo, falando de um modo geral. Pode ser que tenha um pequeno pedaço do Bolsonaro que ache que é anti-sistema, mas eu diria que de modo geral é isso.

Como explicar o crescimento do Bolsonaro, sendo ele um deputado federal de um partido pequeno e, agora, um candidato sem alianças. Como explicar essa visibilidade toda? São as redes sociais…?

Almeida: Realmente, isso daí é um fenômeno. Acho que a conjuntura do Brasil, eu diria que a soma de uma crise econômica muito grave e longa com escândalos de corrupção (…), o Bolsonaro veio com discurso contra tudo isso. Ele vem com discurso mais autoritário, com referências importantes, uma coisa ancorada em militar. Isso daí foi mobilizador. Ele próprio, Bolsonaro, faz um paralelo com Trump. E ele tem 2 coisas que dá para fazer um paralelo com Trump: uma linguagem muito simples e a falta de compromisso com a verdade. É difícil debater com Bolsonaro. Um candidato mais escrupuloso vai lá e fala uma coisa real e ele responde sem o menor… O Trump é assim! Mas tem uma diferença entre os 2: o Trump estava num grande partido. Nos EUA, somente 2 partidos têm chance de ganhar a eleição. E Bolsonaro não, ele está num partido extremamente pequeno, irrisório, irrelevante. Essa é a diferença entre eles, e é fundamental se a gente avaliar a chance de vitória.

Você diria que este é o fator determinante para que Bolsonaro não chegue ao segundo turno?

Almeida: Eu diria que sim. O PSL não tem nenhum governador, tem pouquíssimos deputados, não tem nenhum senador. Na eleição de 2016 elegeu 30 prefeitos. Quer dizer, é um partido basicamente irrelevante. É um partido que, em breve, vai deixar de existir por cláusula de barreira 

Quem fez o prefácio de seu livro escreveu que, após a leitura, apostaria que o candidato do PT, na inviabilidade de Lula, seria Jaques Wagner…

Almeida: [O livro foi concluído e entregue para a editora em novembro de 2017. O prefácio é do começo de 2018.] Você tinha sinais mais claros, àquela época, de que caminharia para ser o Jaques Wagner. Houve uma mudança. A gente não sabe ainda. Tudo indica que, caso Lula não possa vir a ser o candidato, será Haddad. De todo modo, é só uma diferença de nome. O que está lá [no livro] é a disputa PT e PSDB.

Quando você escreveu o livro, passou pela sua cabeça que Lula não só não seria o candidato como também seria incapacitado de fazer campanha para o candidato do PT?

Almeida: (…) No meu livro, tenho uma visão da política que é a política muito conectada com a sociedade. (…) O livro é focado nisso, na sociedade. Regiões do País onde as pessoas são mais pobres tendem a votar num determinado candidato. Eu não procurei o comportamento da elite política, nada disso. Por isso que, em nenhum momento, me passou pela cabeça o que iria acontecer com o Lula no momento em que eu escrevi o livro. Eu olho o PT como estrutura partidária, como uma marca. As pesquisas de hoje indicam que a preferência é de cerca de 21% [do eleitorado]. Ela é maior no Nordeste. De alguma maneira, o livro está canalizando essa informação.

Eu perguntei porque, no livro, você explica que o PT e PSDB, diferente dos grandes partidos de centro-esquerda e centro-direita na Europa, por exemplo, são menos ideológicos e mais personalistas, isto é, o eleitor brasileiro vota na figura que representa suas causas. E Lula é o principal ativo do PT…

Almeida: Isso é importante. Nos países presidencialistas, como o voto é na pessoa, os partidos são mais pragmáticos e personalistas. Nos países parlamentaristas – basicamente toda a Europa – os partidos são mais programáticos. (…) Eu concordo quando você afirma que Lula é o principal ativo do PT, mas não podemos nunca esquecer que o PT tem outros ativos. [Ele tem] Quatro governos estaduais importantes: Minas, Bahia, Ceará e Piauí. São ativos do PT. Não sei se têm a ver com Lula, são coisas regionais, são regiões mais pobres(…) O PT tem como ativo a identificação partidária.

Você poderia dissecar, então, quais são os elementos que devem levar o PT ao segundo turno sem Lula?

Almeida: Vamos supor que Lula não será candidato. Isso será anunciado pela Justiça. Os principais líderes do PT vão para Curitiba esperar uma carta de Lula, que terá uma narrativa sobre o que ele representa, o que o PT representa, a impossibilidade de ser candidato e vai dizer, por conta disso, que passa o bastão para fulano. Só isso dará uma mídia imensa para o candidato do PT por uma semana ou três dias, que seja. O Nordeste vai olhar, isso vai estar no meio da propaganda, (…) vai estar nas pesquisas. (…) Isso cria uma bola de neve, vai crescendo. (…) Lula, não exatamente estou falando de transferência de voto, mas o Lula dá um empurrão e o candidato sobe. (…) Tem maneiras de contornar isso [a ausência de Lula em palanques] que levam o candidato a crescer.”

E os desafios de Alckmin?

Almeida: [A eleição de 2014, com Marina sendo superada por Aécio às vésperas do segundo turno] nos ensina que o eleitor vai vendo a propaganda, mas se está longe da eleição, ele não tem que decidir. Uma parcela mais significativa decide mais em cima da eleiçõa. Pesquisas mostraram que Aécio ultrapassou a Marina de passagem, eles estavam junto numa quinta-feira, a eleição era no domingo. Ele abriu de 3 a 4 pontos por dia. É muita coisa. O que pode acontecer é ter uma comunicação do Alckmin, com muito tempo de TV, e Bolsonaro ir praticamente sumido. Com isso, as informações vão se acumulando. O eleitor não necessariamente tem que decidir. Aos poucos é que vão decidir, abandonar Bolsonaro e ir para o Alckmin.

Um problema do Bolsonaro é que, aos poucos, ele transmite, por gafes e por ter um partido pequeno, a ideia de que não tem como governar se for eleitor. Eu imagino que o Alckmin vai dizer que Bolsonaro tem partido pequeno, e se ganhar, não vai governar o Brasil. O eleitor ouve aquilo e não muda de voto. Lá na frente, ele junta todas as informações e muda.

A candidatura do Meirelles serve para ajudar o Alckmin na medida em que dá ao governo um candidato próprio, tentando descolar o PSDB de Temer?

Almeida: [Meirelles] Não tem chance, todo mundo sabe que não tem chance. Então por que a candidatura, para jogar dinheiro fora? Não, é uma maneira de Alckmin dizer que o governo tem seu candidato. Isso vai ser uma disputa de narrativas, já está aí nas mídias. Vamos ver ao que o eleitorado vai aderir mais.

Eu coloquei [em análise] uma série de dados do Datafolha, de segundo turno entre Lula e Alckmin, porque são os mais conhecidos. (…) Antes do impeachment, Alckmin estava na frente. Passado o impeachment, aos poucos Lula assumiu a liderança e consolidou. Como interpreto isto: o eleitorado estava votando na oposição antes do impeachment. Quem era oposição antes do impeachment? Alckmin. Então ele [eleitorado] continuou votando na oposição depois do impeachment, o que aconteceu é que o impeachment mudou o nome próprio da oposição. Antes a oposição era Alckmin e PSBD, após o impeachment passou a ser Lula e PT. De alguma maneira, então, o eleitorado já tem uma visão disso.

O PT já tem anunciado que o Nordeste todo está fechado com Lula. O que isso representa em números?

Almeida: O Nordeste, nas últimas 3 eleições [2006, 2010, 2014], deu 60% dos votos para o candidato do PT. Numa eleição foi Lula, e duas, Dilma. Vamos supor que o Nordeste dê [mais uma vez] 60%. O Nordeste tem cerca de 27% do eleitorado [nacional]. Isto já significa que o candidato 16% a 17% dos votos nacionais. 

Aí temos a região Norte, que também deu vitórias ao PT. Vamos supor que o Norte dê 50%. A região é pequena, tem 7% dos eleitores, mas aí o PT chegaria a 3,5% dos votos. Somando estas duas regiões, você chega a 20%, independentemente de quem seja o candidato do PT. 

E a candidatura a Marina?

Almeida: (…) Marina tem dificuldade de recursos. De maneira mais técnica, eu diria que a candidatura de Marina é difícil compreensão. Eu não ficarei surpresa se ela tiver uma votação de um dígito apenas, abaixo dos 10%. Isto não será surpresa. Não será surpresa também se Ciro Gomes também tiver votação abaixo de 1 dígito. Ele tem sua base mais forte no Nordeste e na hora que o PT entrar com a campanha, tende a reduzir os votos do Ciro. 

Pelo que estamos discutindo até agora, o PT então não precisaria lançar mão da estratégia de levar Lula às urnas com um registro sub judice, pois outro nome teria condições de disputar com chances de chegar ao segundo turno…

Almeida: Isso daí é uma dificuldade imensa de dizer, o que vai acontecer. (…) O PT é um partido de pragmatismo e realismo imensos. Extremamente moderado. Eu não creio que, no final das contas, o partido acabe decidindo pela estratégia mais radical, que é por na urna e levar a eleição sub judice. Eu acredito que o caminho seria pela estratégia mais moderada: ter um candidato e fazer a identidade desse candidato com o Lula. 

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