Comunista, cristão e paraíba: descubra o governador Flávio Dino 

Reportagem da Carta Capital 

 

O século 20 mal tinha começado quando o pai do pai juntou as tralhas e navegou 4.670 quilômetros pelos afluentes do Rio Amazonas, entre Itacoatiara e Belém, para estudar Direito. Na mesma época, o pai da mãe fez as malas em Portugal, cruzou o Atlântico e uniu-se aos negócios de um tio em São Luís. Veio acompanhado de dois irmãos, José e Joaquim. Ele, o Manoel dessa história. O acaso precisaria de quatro décadas para levar o rio ao encontro do mar. Sálvio, filho do amazonense, esbarraria em Rita, filha do português, corriqueira união de raças e culturas que deu origem ao Brasil. E que deu, neste caso específico, em Flávio Dino, alçado à condição de o mais ilustre “paraíba” por obra dos desatinos de Jair Bolsonaro, detentor de um arsenal inesgotável de ofensas e golpes baixos. “Com muito orgulho”, responde o governador da “Paraíba do Norte”, ou melhor, do Maranhão. “Se ele pretendia me intimidar, enganou-se. Não tenho medo de nada e de ninguém.” 

Fosse outro o político, a frase acima soaria como uma resposta retórica no calor de um embate, jogo de cena para a base de apoio. Dino tem dado, porém, mostras de um destemor raro entre as lideranças de oposição. Enquanto muitos se escondem, silenciam ou preferem os floreios, o governador do Maranhão faz questão de intervir no debate público sem meias palavras. Tornou-se, em consequência, referência no campo oposicionista e alvo dos adversários. Não espanta, portanto, que Bolsonaro mire o governador e não outros expoentes da oposição. São duas as armas esgrimidas por Dino com talento, humor e o Twitter. 

Na segunda-feira 29, após o ex-capitão fazer troça do assassinato do pai do presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, desaparecido político durante a ditadura, ele não tardou a prestar solidariedade nas redes sociais a Felipe Santa Cruz. “O terrível assassinato do pai de uma pessoa não deve servir de arma para a politicagem. Quando o infrator da regra civilizacional é o presidente da República, mais grave é o fato.” Santa Cruz, ressalte-se, será homenageado pelo governo do Maranhão. Horas depois, viria a público um manifesto a favor da demissão de Sérgio Moro do Ministério da Justiça, por conta da manifestada intenção de destruir provas colhidas na investigação dos hackers. Redigido por Dino, o manifesto receberia a adesão de Guilherme Boulos e Roberto Requião, entre outros.  

O governador é uma máquina de declarações espirituosas e tuítes sinceros. Ao receber uma fita vermelha do Senhor do Bonfim na entrada da reunião dos governadores do Nordeste em Salvador, brincou com a baiana: “A senhora escolheu a minha cor preferida. É boa essa proteção, tem muita gente do mal espalhada pelo Brasil”. Sobre Bolsonaro, já disparou: “Tem um insano no comando do País que lidera uma minoria sectária”. A dois entrevistadores que imaginavam constrangê-lo ao perguntar se ele era “comunista” e se era “comunista de iPhone”, saiu-se com essa: “Comunista, graças a Deus. E, sim, quero a tecnologia para todos. Defendo a partilha, a justiça social”. Ao saber que o vice-governador de Alagoas viajara a Pequim, soltou: “Sou um comunista de araque. Nunca fui à China, nem à Coreia do Norte, nem a Cuba”. 

No fundo, Dino é mais cristão do que comunista. Nutre uma devoção particular por São Francisco. Para provar, exibe a imagem do santo presa por uma corrente em volta do pescoço. “Estou sempre com ele. Uma das maiores emoções da minha vida foi visitar seu túmulo na Itália.” O gabinete no Palácio dos Leões parece um santuário. As imagens de São Francisco e de Nossa Senhora predominam, protegidas por bustos de Salvador Allende, Ho Chi Minh e Che Guevara. Na ampla sala de reuniões ao lado, a Bíblia sustenta a Constituição, e vice-versa. Não raro, o governador recorre a versículos, em especial do Novo Testamento, para corroborar suas teses ou simplesmente produzir um efeito retórico. Lembrar que a defesa da igualdade é antes de tudo um preceito do Cristianismo talvez embaralhe a mente dos interlocutores dispostos a acreditar que os comunistas vivem a devorar criancinhas. “Sou a síntese do socialismo moreno, como repetia o Brizola”, brinca. 

Aos 51 anos, o socialista moreno do Maranhão representa uma realidade do Nordeste que Bolsonaro e uma parte significativa do Centro-Sul desconhecem e menosprezam. A crise econômica e social iniciada em 2015 deixa suas marcas – o desemprego e a miséria voltaram a assombrar a região de maneira mais aguda do que no resto do País –, mas a memória dos avanços da última década e meia continua aguçada. E não se trata apenas da melhora das condições de vida. Nenhuma outra parte do Brasil experimentou uma renovação política tão profunda. As oligarquias que dominaram o Nordeste durante o século XX praticamente desapareceram. 

Paulo Câmara, governador de Pernambuco ungido pelo falecido Eduardo Campos, tem 47 anos. Camilo Santana, do Ceará, nasceu no mesmo ano de Dino. Embora veterana no Congresso, Fátima Bezerra governa pela primeira vez o Rio Grande do Norte. O baiano Rui Costa é um “veterano” de 56 anos. E, apesar de herdeiro de um senador de longa carreira, Renan Filho, aos 40, não deixa de reafirmar a novidade. “O Nordeste é um foco de luz em meio às trevas”, define Othelino Neto, presidente da Assembleia Legislativa do Maranhão, ele também um jovem deputado em terceiro mandato. “Se há algo diferente no pensamento político brasileiro, ele prospera aqui”, avalia o senador Jaques Wagner. 

O desprezo de Bolsonaro pelo Nordeste é um sentimento recíproco. A região rejeitou em peso o ex-capitão em outubro de 2018. Desde então, a relação só piorou. A claudicante aprovação nacional do presidente é pior entre os nordestinos: míseros 25% avaliam seu governo como ótimo ou bom, contra 33% na média nacional. E tende a cair mais. O uso da expressão “paraíba” para atacar Flávio Dino e prometer retaliações ao Maranhão provocou o efeito inverso do pretendido. 

O que era para ser uma humilhação estimulou uma onda de orgulho. A OAB da Paraíba lançou a campanha “Eu sou muito feliz, eu sou paraibano”. A cantora maranhense Alcione cobrou compostura de Bolsonaro: “Respeite o povo nordestino”. Artistas e intelectuais de diferentes estratos também fizeram questão de demonstrar repúdio, assim como antigos beneficiários do discurso de ódio bolsonarista que tentam se descolar da barbárie de olho na sucessão em 2022. 

A alta rejeição explica o abandono do Nordeste por Brasília. Bolsonaro e seus ministros raramente dão as caras na região. Somente 10% dos voos de autoridades tiveram os estados nordestinos como destinos nos últimos sete meses. Para aparecer, e quando aparece, o ex-capitão se cerca de um forte esquema de segurança e de uma claque própria, como fez na inauguração do Aeroporto Glauber Rocha, na baiana Vitória da Conquista, evento recheado de correligionários que nada fizeram e sem a presença do governador Rui Costa, responsável por garantir os recursos que cobriram a parte da União e permitiram a conclusão das obras. 

Os governadores da região, nem Bolsonaro pode negar (talvez negue), esforçam-se para apaziguar os ânimos. Até o próprio Dino, que não foge das refregas: “Não há a pretensão de fazer da região uma ilha gaulesa de resistência. Não sonhamos em ser Astérix ou Obélix. Ao contrário. Queremos emular as nossas práticas para o resto do Brasil. O Nordeste unido só faz bem ao País”. 

Dependentes dos repasses federais, os estados tentam encontrar brechas de diálogos e parcerias em meio à hostilidade de Brasília – nem sempre com sucesso. Reunidos na segunda-feira 29, em Salvador, para acertar os últimos detalhes do Consórcio Nordeste, os mandatários anunciaram o adiamento da versão regional do Mais Médicos à espera do lançamento de um programa semelhante, o “Médicos pelo Brasil”, idealizado pelo Ministério da Saúde. “Vamos evitar sobreposições”, declarou Costa, presidente do consórcio. “Queremos contribuir com o ministro, em prol dos interesses nacionais.” 

O consórcio promete transformar-se em uma inovação administrativa e política como há muito não se via. Basicamente, os estados pretendem unificar as compras governamentais para reduzir os custos e evitar desperdícios do dinheiro público, além de atuar em conjunto nos momentos de crises de segurança e saúde. Mesmo antes de ser formalizada, a parceria funcionou. A colaboração entre as polícias estaduais foi essencial para conter a crise de violência que assolou o Ceará no ano passado. 

A experiência serviu de laboratório. “Não é um mero contraponto político à União. Essa ideia não nasceu agora, vem de algum tempo, e pretende dar sustentabilidade econômica e melhorar a gestão”, insiste Fátima Bezerra. A comparação é, no entanto, inevitável. Enquanto Bolsonaro divide para conquistar e banca a destruição do Estado, os governadores nordestinos exercitam o diálogo acima das paixões e apostam no fortalecimento do setor público contra a crise.  

Essa visão parece reverberar por todo o Nordeste, e só no Nordeste, mas o Maranhão de Dino continua a ser um fenômeno peculiar no contexto regional. Primeiro filiado do PCdoB a administrar uma unidade da federação, o governador venceu de forma consagradora, no primeiro turno, as eleições de 2014 e 2018. Nenhum outro político brasileiro reuniu, nas duas disputas, um arco tão amplo e diverso de apoios, que vão do DEM ao PSOL. Pesam, é claro, a habilidade política de Dino, sua simpatia e o trato fácil – a silhueta, certos trejeitos e o sobrenome remetem aos dinossauros bonachões dos desenhos animados, fiéis amigos das crianças. 

Outra força atrativa teve, porém, importância decisiva na junção de interesses em princípio tão díspares: a aversão aos Sarney. Os 50 anos de domínio quase ininterrupto da família e seus resultados práticos na vida maranhense (o estado exibia até última década os piores indicadores sociais do País), somados à breve e frustrante experiência no poder do pedetista Jackson Lago, cassado em 2009 por uma manobra de juízes ligados a José Sarney e falecido em 2011, impulsionaram a repulsa coletiva à oligarquia. A reeleição de Dino no ano passado, tudo indica, sepultou as pretensões do clã de voltar aos tempos do absolutismo maranhense. O último remanescente é o deputado estadual Adriano, filho de Zequinha Sarney, que faz questão de ocultar o sobrenome do avô. 

O ocaso dos Sarney esculpiu um abismo político, espaço que o raquítico bolsonarismo no estado é incapaz de ocupar. A oposição institucional a Dino resume-se a 3 dos 42 deputados estaduais. Em geral, quem não gosta de suas opiniões e de sua atuação prefere lotar suas redes sociais de comentários jocosos e raivosos ou disseminar notícias falsas. Nas ruas de São Luís, o clima é outro. O governador mais parece uma celebridade: tira fotos, ouve gritos de “meu presidente”, retribui com acenos e beijinhos e dá autógrafos, às vezes uns trocados para alguém necessitado de um café. O respaldo popular serve não só para massagear o ego em uma manhã ensolarada. Garante a legitimidade para suprimir um dos vícios mais arraigados das longas décadas de predomínio de um único grupo político no poder, a mistura entre o público e o privado. “Foi preciso eleger um comunista para o Maranhão experimentar valores republicanos e regras de mercado”, afirma Othelino Neto. 

O centro de apoio do projeto Ninar traduz essa mudança. Criado para abrigar as famílias do interior com filhos afetados por doenças neurológicas, o centro ocupa a antiga casa de veraneio do governo, encravada no metro quadrado mais caro da capital. Em 2017, quando o projeto saiu do papel, aliados dos Sarney zombaram da ideia de ocupar uma “área nobre” com crianças miseráveis e “incapacitadas”. Certamente preferiam os tempos em que a família promovia no imóvel público festas homéricas e particulares. Nos estertores do derradeiro mandato de Roseana, de tão extravagantes, os convescotes evocavam lembranças do Baile da Ilha Fiscal. 

Outra obra emblemática é a recuperação do Edifício João Goulart, único prédio modernista do Centro Histórico de São Luís, abandonado havia 30 anos. Depois da reforma, fruto de uma Parceria Público-Privada, 500 funcionários estaduais serão transferidos e criarão nova demanda por serviços na área. Os sem-teto que antes ocupavam o edifício foram transferidos para moradias populares e trabalharam na obra. As mesas e cadeiras dos escritórios vieram do presídio de Pedrinhas, cujas masmorras no passado recente nada deviam à Idade Média e envergonhavam o Maranhão. “Estou no sistema desde 2007 e pela primeira vez tive chance de trabalhar. Aprendi uma profissão”, relata Jó Francisco, um dos presos que trabalham na montagem dos móveis e que aprenderam o ofício de marceneiro na cadeia. Registre-se: Francisco considera de muito mau gosto as declarações de Bolsonaro sobre “os paraíbas”. 

As mudanças na vida dos maranhenses mais pobres foram muito mais profundas. O estado paga o maior piso salarial do País aos professores, cerca de 5,5 mil reais, ampliou o ensino em tempo integral e adotou um agressivo cronograma de reforma de colégios. Os investimentos refletiram-se na melhora das notas dos alunos nas provas nacionais. No auge do Sarneystão, o governo chamava de escolas aglomerados sem parede, janelas ou portas e com teto de sapê. As estruturas precárias dos prédios públicos e das casas eram naturalizadas pelo clã e seus aliados. Em 2006, ano em que a família completou 40 anos de domínio político e econômico, o então senador Edison Lobão, recentemente indiciado pela Lava Jato e chamado de “Esquálido” nas planilhas da Odebrecht, me disse: “O IDH é uma invenção da ONU, não serve para os maranhenses, eles gostam de viver assim”.  

Lobão referia-se às casas de pau a pique com fossa e cisterna do lado de fora. O programa +IDH, lançado por Dino no primeiro mandato, desmente a esquálida tese. Composto de ações intensivas, de geração de renda a oferta de serviços públicos, o programa alcança as cidades com os piores índices de desenvolvimento humano do estado, comparáveis a Ruanda ou ao Sudão. Não há indícios de que os moradores desses municípios estejam insatisfeitos com a elevação da qualidade de vida provocada pela queda da mortalidade infantil, a melhora no atendimento básico à saúde ou o dinheiro extra gerado pelos estímulos à produção local. Sem entender as mudanças recentes no Nordeste e no Brasil, o grupo que ainda gravita em torno dos Sarney está destinado à extinção. Dino vai comandar uma nova dinastia? Pouco provável, dada a natureza do governador e a complexidade da aliança que o sustenta. 

O Maranhão parece, de qualquer forma, pequeno para as possibilidades de Dino. Os ataques de Bolsonaro, embora atropelem a Constituição, a civilidade e a liturgia do cargo, não deixam de ser um favor ao comunista. No início do segundo mandato, à frente de um dos mais pobres e desiguais estados do País, limitado pela recessão nacional, o governador ganhou uma projeção inesperada neste momento. E, ao contrário do petista Fernando Haddad, de quem se esperava uma liderança atuante respaldada por 44% do eleitorado, o governador não foge da raia. De forma natural, Dino encarna as contradições do preconceito. 

Leitor voraz, fascinado pelo pensamento político e jurídico liberal, desenvolvimentista no campo econômico, carreira inquestionável na Justiça, bem-educado, mais bem avaliado governador do País, o “paraíba” foi destratado por uma espécie de meeiro branco do Sudeste que despreza a educação e a ciência, jacta-se da trajetória irrelevante no Congresso, submete a língua portuguesa a uma interminável sessão de tortura e faz apologia de crimes contra a humanidade e da ação das milícias como se recitasse um poema. É difícil imaginar os motivos que levam os seguidores de Bolsonaro a pregar uma superioridade racial, intelectual ou moral nesta comparação – ou em outra qualquer. 

Flávio Dino, na entrevista a CartaCapital e a outros meios de comunicação, nega por ora a intenção de concorrer à Presidência da República em 2022. “Tenho um compromisso com o povo maranhense e estou concentrado em cumprir bem o meu mandato”, disfarça. Os aliados e os adversários consideram, porém, a candidatura inescapável. O fim das coligações proporcionais obriga os partidos a lançar nomes próprios no primeiro turno, até como forma de sobrevivência. 

Mesmo se daqui a três anos as suas chances de vitória se mostrarem remotas, entrar na corrida presidencial garante-lhe um lugar no primeiro plano da política. Antes de ganhar, demonstram as experiências e afirma a sabedoria popular, é necessário disputar as eleições. Lula precisou de quatro para chegar ao Palácio do Planalto. Se optar ou não tiver condições de concorrer, Dino tem tudo para ser protagonista no campo progressista, liderança a ser consultada por quem, no fim das contas, representar a oposição. Em algum nível, Bolsonaro não escapará de um confronto decisivo com o “paraíba”. 

 

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