Davidson Magalhães: Bolsonaro entrega o Brasil a Trump

A manchete da imprensa diz que o Brasil é o país em que os Estados Unidos têm o maior avanço no superávit comercial. No primeiro ano do nefasto namoro de Bolsonaro e Trump, somos a nação que mais contribuiu positivamente para a balança comercial americana. Os EUA tiveram saldo de US$ 11,3 bilhões (Nov/2029), contra US$ 7,7 bi em igual período de 2018. A conta positiva para Washington cresceu em US$ 3,6 bilhões em apenas um ano.

O resultado é que Tio Sam hoje importa menos produtos brasileiros e exporta mais produtos para o Brasil. Os produtos que mais cresceram em importação foram os combustíveis, com destaque para a gasolina. Até novembro de 2019 houve um crescimento de 35% nesta importação, o que representou 7,7 bilhões de dólares em despesas para nosso país.

O foco acelerado da Petrobras sob direção do atual desgoverno é exportar apenas o óleo cru, de baixo valor agregado, e deixar de refiná-lo, cessando a produção do combustível, que é onde está o maior valor agregado. Ou seja, estamos deixando de gerar empregos aqui para gerarmos mais empregos nos Estados Unidos.

Aqui, cabe a pergunta: por que passamos a importar tanto combustível, se o Brasil descobriu tanto petróleo nas últimas décadas e some-se a isso a fertilidade do pré-sal?

De 2009 a 2014 a Petrobras fez os maiores investimentos de sua história, superando US$ 250 bilhões. O PIB crescia e o país apresentava superávits primários e não déficits, como ocorre hoje. O pré-sal começava a injetar recursos em áreas sociais, como a Educação e Saúde.

Mas tudo mudou a partir do golpe do impeachment de Dilma e a entrada em cena do temeroso Temer. A estatal começou a vender suas subsidiárias. Com Pedro Parente na presidência da Petrobras iniciou-se um plano que segue em curso, de abertura ao capital estrangeiro.

Sob Bolsonaro, acelerou-se a política entreguista e de desmonte da atividade produtiva do Brasil. A BR Distribuidora foi vendida. No setor de gás, o mesmo ocorreu com a TAG, maior transportadora do gás nacional, vendida a uma multinacional franco-belga.

Com a desindustrialização, passamos a exportar apenas o produto primário, de baixo valor agregado, e deixamos de ser exportadores do produto industrializado, de alto valor agregado.  Para isso, segue o desmonte das refinarias, para cessar a produção de combustível, e deixar o país exportando apenas óleo cru e comprando gasolina a preço de dólar.

Aqui na Bahia, vejam só, a Refinaria Landulpho Alves funciona com apenas  57%  de sua capacidade. Em Pernambuco, 27% de produção na Refinaria Abreu e Lima está parada. No Paraná, 45% não está sendo utilizada na Refinaria Presidente Getulio Vargas. E no Rio Grande do Sul, a Refinaria Alberto Pasqualini funciona com apenas 58%. Mais de 4 mil empregados estão seriamente ameaçados pelo desemprego.

Quem ganha e quem perde com a atual política de importação de combustível? Ganham os traders internacionais e as refinarias estrangeiras, que geram empregos, lucros e renda em seus países. Perdem os consumidores brasileiros que pagam preços mais altos. Perde a Petrobras com suas refinarias na ociosidade e transferindo emprego e renda para o exterior. O petroleiro perde o seu emprego. Perde o Brasil que fica com a economia menos competitiva.

É preciso reagir. Não podemos deixar que aconteça no Brasil o que a filósofa política alemã Hannah Arendt  previu, quando aborda o domínio da “banalidade do mal”, ou seja, a sociedade passa a achar normal determinadas decisões de governos autoritários, que, “podem ser aparentemente sem maldade”, mas transformam, radicalmente para pior, a vida do indivíduo e o destino do país.

Não é possível acharmos que “tudo vai bem”. Não vai não. Está passando da hora de defendermos a soberania nacional no campo do petróleo. Que um dia já foi mais nosso do que hoje o é.

 

Davidson Magalhães é secretário do Trabalho, Emprego e Renda da Bahia

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