Flavia Azevedo: O feminismo não sai das escolas nem debaixo de porrada

Duvide-o-dó que algum(a) professor(a) tenha levado a sério o “conselho” que esse moço deu, via rede social, de que não se discuta feminismo nas escolas. Por outro lado, também entendo o pessoal que fala “deixa pra lá” apontando a inutilidade de discussões que seriam “cortinas de fumaça”. Apenas um post inócuo e patético? Talvez. Mas levanta uma bola. E eu fico me perguntando aqui: de onde estamos, ainda daria pra voltar atrás?

Não acho. Mesmo num hipotético, distante e impensável (sou otimista, tá ok?) cenário de cerceamento da liberdade de expressão dos professores em sala de aula. Só uma besta quadrada acredita que conteúdos aparecem apenas quando trazidos conscientemente e de maneira formal. Temos que assumir que o playboy já perdeu: feminismo é desde o berçário.

Vejam bem: o “aluno que inicia, agora, o primeiro ano do ensino médio” pode nunca ter ouvido falar nem sobre Simone de Beauvoir, que é o básico. No entanto, provavelmente, sabe mais sobre feminismo do que a maioria dos nossos deputados. Intuitivamente. É uma questão geracional. Essa turma tá crescendo imersa no exercício da (e na briga por) equidade de gênero. Em casa, nas ruas, nas redes sociais, é essa a realidade. Felizmente, é esse o mundo que eles conhecem. Por mais que alguns vivam, ainda, em estruturas familiares patriarcais, não há como evitar que olhem por cima do muro e percebam o mundo ao redor.

Sim, conseguimos avançar, no Brasil. A ponto de modificarmos, em níveis diferentes, diversas estruturas machistas e cada vez com mais intensidade. As relações não são mais as mesmas de, por exemplo, 20 anos atrás. Mesmo o adolê mais reacionário – aquele que brada contra o que lhe parece “liberdade demais” para as mulheres -, mesmo a garota que ainda não entendeu as desvantagens de ser tratada como “princesa”, todos eles vivem feminismo e são beneficiados pelo que significa essa palavra. Que seria queimada, caso houvesse uma grande fogueira idiomática. Por alguns, claro. Precisamente, pelos repetem a imbecilidade de que “qualquer ismo é ruim” e ainda atribuem a “feminismo” e “machismo” semelhantes significados. Muitos, por pura sacanagem.

Distorções, cinismos e ignorância manipulada. A gente cansa de explicar que a primeira palavra quer dizer “estamos juntos” e, a segunda, uma pretensa “superioridade”. Que uma liberta e a outra mata. Mas o exercício cotidiano não para. Tem feminismo na história de vida da garota que nasceu em um parto escolhido pela mãe. Tem feminismo na infância do filho que viu a violência de casa finalmente acabar com a separação dos pais. Tem muito feminismo nos mais de 30 milhões de lares chefiados por mulheres, neste país. Ainda que, em muitos deles, não se conheça qualquer teoria.

Não falar sobre feminismo nas escolas será praticamente o mesmo que não tratar do sistema respiratório, nas aulas de biologia. Não deixarão de existir, ainda que sejam ignorados. Em todas as aulas, estudantes estarão respirando, mesmo que não entendam como. Da mesma forma, não há como evitar: nas vidas de todos eles, haverá o resultado de lutas femininas, o dinheiro de mulheres que trabalham. Minimamente, em todas as famílias já há pelo menos uma mulher que faz questão de liberdade. Em todas as portas de creches e escolas, na maioria das salas de aulas, estarão mulheres trabalhando, sustentando, fazendo escolhas. Em cada uma delas, um manifesto feminista encarnado. Em atos e palavras, continuando a tecer a mais irreversível realidade.

(Agora, felizmente, é tarde. O feminismo não sai das escolas nem debaixo de porrada)

 

Flávia Azevedo é colunista do jornal Correio*, onde o artigo foi originalmente publicado

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