GalindoLuma: Cearenses toscos no avião

Seguiria eu da cidade de Dublin para Lisboa, uma viagem que duraria cerca de três horas. Estava no balcão da companhia aérea a pedir uma informação e um simpático rapaz aparentando ter uns 30 anos que estava ao lado puxou conversa conversa:

– Você é brasileiro?

– Sim. E você de onde é?

– Nasci na cidade do maior herói do povo brasileiro.

– Então você é pernambucano de Garanhuns?, provoquei.

– Não, sou paranaense.

Estava frio, eu vestia uma camisa por baixo com o famoso “Lula Livre”, e por cima, um casaco. Queria me livrar daquele “mala” o mais rápido possível.

– Prazer, em conhecê-lo, vou ali fazer um lanche.

– Eu vou contigo, vou tomar um café. Que bom que encontrei um brasileiro para conversar.

‘Puta que pariu, lá vem um devoto da mafia de Curitiba encher meu caso” pensei.

Esse moço sentou comigo e conversamos quase duas horas, ele contando suas peripécias em baladas e orgias por mais de 40 países que disse ter visitado. Ao contrário do que pensei, a conversa foi agradável, não falamos de política e ele acabou me dando uma ótima dica de conhecer a belíssima praia de Setúbal em Portugal. Então, o problema que imaginei que seria com ele, estava por vir. E não foi mole não.

Me acomodei na segunda fileira na entrada do avião, na cadeira do corredor. Ao lado, um casal aparentando ter cerca de 70 anos. No momento em que eles estavam com dificuldades para encontrar a entrada do cabo de carregar o celular, eu os ajudei mostrando o lugar, na parte inferior esquerda da poltrona. E foi assim que tudo começou. E foi assim que paguei todos os pecados de minha vida. E foi assim que eu ouvi a maior quantidade de merda que uma pessoa possa ouvir. E foi assim que me senti um depósito de fezes sendo abastecido por jatos de merda saídos das bocas daqueles caquéticos saídos das cavernas. Não posso negar que houve momentos divertidos, embora eu não pudesse rir das bizarrices expostas. Na verdade, o que ouvi deles, nós já temos conhecimento – é a repetição da cantilena conservadora -, mas dessa feita de viva voz, em dose cavalar, de duas pessoas tão ignorantes quanto estúpidas. Me parece que a dupla deve ter sido reprovada no curso básico de iniciação política de Olavo de Carvalho e agora está estudando para a recuperação.

A conversa começou daquele jeito tradicional, quando se pergunta de onde o outro é. O velho, mais frágil intelectualmente do que esposa – que vez em quando dava-lhe uns esporros -, me disse que estava se mudando/retornando de São Paulo para Fortaleza, depois de ter passado lá mais de 30 anos. Que tinha uma bela casa num condomínio fechado na capital paulista, que comprara um apartamento luxuoso na Avenida Beira Mar de Fortaleza e uma casa de veraneio na praia de Paracuru, onde pretendiam curtir a aposentadoria. Estavam em Dublin para o aniversário de uma neta – eles começaram a me mostrar dezenas de fotos da netinha no celular, o que vem a ser um saco, mas tudo bem. “Que fofinha, que lindinha”, puta que pariu!

Depois começou a conversa propriamente dita:

– Por acaso você é do PT.

– Não, nem gosto de política, eu gosto é de literatura – para tentar de saída afastar uma conversa desagradável.

– Pois é, lhe perguntei, pois agora que estou de volta ao Ceará, quando lá cheguei fiquei logo revoltado.

– Poxa, eu gosto tanto de Fortaleza, minha segunda cidade preferida, o que aconteceu?

– O governador e o prefeito de Fortaleza baixaram uma ordem para que os professores ensinem as crianças a partir de três anos a fazer sexo.

– Sério isso, tem certeza?

– Tenho, lá em Paracuru as crianças já estão aprendendo.

– Nossa, que horror.

– Isso é coisa do PT.

– Eles querem ensinar pornografia para nossas crianças desde cedo, reforçou a mulher.

– Eu vou em Fortaleza com relativa frequência, tenho dezenas de amigos e colegas por lá, nunca ouvi falar disso.

– É que a mídia esconde, a mídia foi comprada por eles.

– A senhora conhece alguma criança que tenha tido acesso a esse conteúdo?

– Sim, a filha da empregada lá de casa. Em São Paulo conseguimos acabar com essa palhaçada, mas no Ceará a desgraça do PT é quem manda.

– Lá tem também mamadeira em forma de piroca?

– Por favor, não fale palavrões conosco, nós somos católicos conservadores.

– Desculpe.

– Você sabe que Lula roubou um trilhão? pergunta o velho

– Não, esse tanto? Um trilhão de reais ou de dólares?

– Sei somente que foi um trilhão.

– Onde vocês viram isso?

– No site.

– Qual site?

– É um site. Ele é o homem mais rico do mundo.

–  E eu pensei que fosse o Fidel Castro.

– Fidel era o primeiro mais rico quando estava vivo, depois perdeu a posição para Lula, o maior ladrão do planeta. Aquele lá da Venezuela que não me lembro o nome também tá podre de rico.

– Pois é, como já disse, não entendo muito de política. De vez em quando eu acesso o aplicativo da Folha pra me atualizar um pouco, mas essa não é minha praia.

– Folha de São Paulo?

– Sim, algum problema?

– Esse jornal é comunista, financiado por Jorge Soros.

– Jorge Soros? Não conheço.

– Ele é um comunista bilionário que financia o comunismo no mundo inteiro, interveio a mulher.

– Não seria George Soros, o megainvestidor?

– É esse mesmo.

– Poxa, nunca imaginei que um magnata especulador pudesse ser comunista.

– Ele nasceu na Hungria, país comunista.

– O comunismo não tinha acabado por lá?

– Que nada.

“A Hungria, dirigida pela extrema direita, é um país comunista.” Santo deus, me ajude”, refleti.

– Ele também financia a Rede Globo.

– A globo também é comunista?

– A mais comunista de todas. O comunismo é tão forte que eles tomaram conta até do Vaticano.

– Espere, vocês estão me dizendo que o papa é comunista?

– Um comunista descarado, ateu, que tomou o poder na igreja com dinheiro sujo de Jorge Soros.

– George Soros.

– Isso.

– Você sabe como começou tudo isso?  perguntou ela.

– Não, sou ignorante em política.

– Com um comunista grego chamado Granxi.

– Granxi?

– Não conheço. Você pode soletrar?

– Soletrar?

– Deixe, continue, quem é esse comunista que começou tudo?

– Ele escreveu a teoria do hemogenismo político.

– Hemogenismo? Não sei o que é isso, desculpe minha ignorância.

– Esse grego safado, financiado por Jorge Soros, dizia que os comunistas tinham que construir o hemogenismo na sociedade fazendo a disputa suja em todos os espaços de poder. E isso acabou dando certo, no Brasil e no mundo. Assim, as TVs, rádios, jornais, universidades se converteram ao comunismo no nosso país e no mundo.

– Me permita tirar uma dúvida: por acaso vocês estão falando de Gramsci, que nasceu na Itália, e não na Grécia?

– Esse meu marido fica me fazendo passar vergonha o tempo todo. E você dizendo que não entende de política.

– Eu entendo pouco.

– Você mora na mesma cidade que aquela safada da Daniela Mercury, aquela vagabunda que defende a aberração de casamento de homem com homem e mulher com mulher. Você é a favor?

– Sou contra.

– Muito bem.

– Mas eu sou contra o casamento entre homens e mulheres também. Por mim, ninguém se casaria, todos viveriam solteiros.

– Mas você é contra a família?

Me lembrei na hora de um amigo meu, Marquinho, de Pernambuco, quando seu sogro evangélico o perguntou na minha frente o que ele acha de família e ele respondeu: “família e bosta para mim são a mesma coisa.”

– Eu adoro família, desde que esteja distante, respondi. Daniela é uma mulher querida na Bahia, o povo gosta dela, desconversei.

– Você sabe que ela é dona de 15 usinas na Amazônia? Logo essa canalha que está protestando cinicamente contra os fogos na floresta.

– Usina de que amigo?

– Não sei, só sei que ela tem 15 usinas.

– Onde você viu isso?

– No site.

– Você não está confundindo Daniela com outra pessoa?

– É Ângela Mercury seu idiota, interveio a esposa para “corrigir” o marido.

– E quem é Angela Mercury, perguntei?

– É a presidente da Alemanha.

– A chanceler da Alemanha se chama Angela Merkel. E que usinas são essas que ela tem na Amazônia?

– De que, não sabemos, mas que tem, tem, afirmou com segurança a esposa.

Quando descemos do avião, pegamos o ônibus que nos levaria para a buscar as malas. Eu fiquei numa cadeira de costas para eles. Antes de nos aproximarmos das esteiras eu abri o casaco que deixou estampado o “Lula Livre” de minha camisa. Quando o casal recolhia suas malas, me aproximei e disse:

– Foi um prazer conhecê-los.

– Petista filho da puta.

A história não acabou aqui. Espere só mais um pouquinho.

No avião de Lisboa  pra Salvador tinham dois caras ao meu lado, um português e um carioca. O primeiro folheava um jornal cuja página exibia fotos das queimadas na Amazônia. O Brasileiro então diz:

– Você sabe como surgiu esse fogo?

– Não, tou lendo aqui agora.

– Foi Lula e o PT que mandaram incendiar a floresta pra colocar a culpa no mito.

– Que mito?

– Nosso presidente.

Ao ouvir o início do diálogo apertei o botão que aciona a aeromoça, que logo chegou:

– O que o senhor deseja?

– Pare o avião que vou descer.

 

GalindoLuma é camareiro de motel.

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