Geraldo Galindo: O Cafezinho, Ciro e o identitarismo

Miguel do Rosário é um blogueiro de sucesso à frente de “O Cafezinho”, um dos blogs mais requisitados do campo da esquerda. É um jornalista sagaz e inteligente. Tem um texto de alto nível e por isso mesmo acolhe um grande público em suas publicações – eu próprio um admirador. Na disputa política é fiel escudeiro de Ciro Gomes, sendo um dos mais destacados apoiadores nas redes sociais do que se convencionou a ser chamado de cirismo. Nada de mal nisso, ao contrário. Ciro Gomes é, quer queiram alguns ou não, do bloco progressista no país, em que pese seu pouco equilíbrio emocional que às vezes envereda para a agressividade desnecessária. A crítica recorrente que fazem a ele de ter passado por sete partidos é questão menor – o que vale é sua trajetória dos últimos anos, em que desenvolveu uma carreira combatendo o neoliberalismo, inclusive sendo um competente ministro do presidente Lula, com quem troca farpas atualmente. Como diz José Dirceu, é bom que os dois dialoguem. A escalada fascista em curso no Brasil exige uma frente ampla para conter os arroubos autoritários.

Miguel publicou um artigo no último dia 28/05 para comentar uma entrevista de Ciro Gomes na CNN, em que ele (Miguel) reforça a tese do líder de que o identitarismo teria sido o responsável pela direita no Brasil ter conquistado a maioria do povo. Vejamos o que Ciro disse:
“Não é que as questões identitárias não sejam justas, não tenham que ser patrocinadas. As mulheres são perseguidas mesmo. Os negros são a parte mais vulnerável e mais perseguida mesmo. Os jovens são mais perseguidos mesmo. A comunidade LGBTQI sofre todo o tipo de selvageria e discriminação. E eles têm que ser protegidos. A questão é que a soma desses interesses identitários não representa o interesse nacional. E o interesse nacional é que é a chave para a gente se reconciliar com a maioria do povo”.

Abaixo trarei citações de nosso querido Miguel e farei alguns comentários, mas preciso esclarecer que fazia tempo que queria tratar desse tema, então, o artigo do Cafezinho foi apenas a deixa, como se diz.

“É verdade que a esquerda precisa de um discurso nacional, centrado na questão do emprego, do salário e do desenvolvimento.  Esse é o único discurso capaz de mobilizar as maiorias e vencer eleições majoritárias em prefeituras, governos de estado e presidência da República. Além disso, é preciso tirar a bandeira da defesa da “maioria” das mãos da direita.
“Se a esquerda decidiu não mais falar às maiorias (vistas como conservadoras), então a direita viu a oportunidade de se apresentar como a campeã das maiorias, e passou a varrer a esquerda do mapa”.

Eu digo com certa frequência que quando partimos de uma premissa equivocada, a possibilidade da conclusão do raciocínio ou de uma diretiva política oriunda dela ser equivocada é bastante razoável. A esquerda brasileira venceu quatro eleições seguidas. Em quais dessas renhidas batalhas eleitorais a temática identitária esteve ausente? Respondo: apareceu em todas elas, com mais ou menos intensidade. E apareceu por quê? Porque os movimentos sociais que levantam essas bandeiras, bandeiras absolutamente justas e legítimas, eram bases sólida das campanhas.  Aliás, é bom dizer: as candidaturas de Lula e Dilma foram resultantes desse somatório de movimentos progressistas que existem na sociedade e que labutam em duras condições na defesa dos interesses das “minorias”, muitas vezes com a própria vida ameaçada pelos opressores.

Outra pergunta: em qual de nossas campanhas eleitorais esses temas foram colocados como prioritários? Em nenhuma. Em todas elas o tema central era a grande política, a questão econômica, o emprego, o desenvolvimento, a defesa da soberania etc. A pauta identitária sempre apareceu sintonizada com as principais, com seu devido espaço, com cada segmento apresentando suas pautas. Ora, se se considera que a pauta identitária tomou a centralidade da esquerda, e por isso optamos por nos afastar da maioria do povo, por que vencemos quatro eleições seguidas?

A questão é que quando se perde uma eleição, a ansiedade pela busca por culpados é imediata e muitas vezes se resvala para a simplificação. E muitas vezes também as vítimas das atrocidades políticas são postas como culpadas pela brutalidade feroz dos seus algozes. Assim, se esconde ou se minimiza a ação nefasta dos agressores, enaltecendo os eventuais e supostos erros cometidos – é como transferir a culpa do estuprador para a estuprada. A propósito, devemos lembrar que a esquerda foi golpeada não somente pelos equívocos cometidos, mas principalmente pelos seus acertos, que não foram poucos. Isso provocou a ira das elites que não toleravam mais a hipótese de “intrusos” estarem à frente do governo por tanto tempo.  A derrota de 2018 tem muitos fatores a serem analisados, mas, para mim, o que prevaleceu foi a decisão política das classes dominantes brasileiras de dar um basta nos governos democráticos. Para tanto, meios de comunicação, setores majoritários do judiciário, do Ministério Público e da Polícia Federal, igrejas evangélicas, banqueiros e grandes empresários, articulados com o império do norte, se uniram para derrubar o governo, por meio de um golpe de estado. Como sabiam que nova derrota eleitoral viria pela quinta vez consecutiva em 2018, prenderam o líder da pesquisa, Lula, e pavimentaram o terreno para a entrada em cena da extrema-direita – que não estava no plano inicial -, numa eleição marcada pela fraude (manipulação da Lava Jato e a indústria das fake news).

Portanto, associar nossa derrota, oriunda de uma farsa política, à suposta agenda identitária da esquerda na disputa eleitoral é outra fraude. Aqui, devemos ainda levantar alguns aspectos para o debate. É no mínimo precipitado, ou melhor, é até desrespeitoso, concluir que nossas dezenas de milhares de militantes nos movimentos sociais colocam suas bandeiras específicas como o centro da disputa política. Isto não é verdade. No geral, não prevalece nesses movimentos a ideia de que suas bandeiras sejam mais importantes do que as questões centrais – em que pese existir e ser um grave equívoco político. As lutas das mulheres, dos negros, dos jovens, dos LGBTs, dos ambientalistas, dos direitos humanos, ao contrário do que diz Ciro Gomes, e Miguel discorda dele nesse aspecto, são parte indissociável dos interesses nacionais, da democracia, desde que colocadas no patamar adequado.

O que me parece mais preocupante na discussão é a opinião que diz mais ou menos assim: a população é conservadora, portanto, trazer a pautas específicas dos movimentos sociais para a disputa por hegemonia é fazer o jogo da direita, é afastá-la de nós e jogá-la nos braços dos adversários. Antes de continuar, devo lembrar que, mesmo quando a esquerda brasileira venceu quatro eleições seguidas, o conservadorismo já existia, está arraigado na sociedade – o machismo, a homofobia e o racismo estão impregnados em boa parcela de nosso povo. Diante desse conservadorismo, a esquerda deveria arquivar ou deixar à margem, invisíveis, as pautas que tentam elevar a consciência da população? É como se quiséssemos dizer que em outros períodos não era correto cobrar direito ao voto feminino com o argumento de que a sociedade era conservadora – e era mesmo -, e que isso atrapalharia a luta política. Ou que não se deve colocar na ordem do dia o combate ao racismo e à LGBTfobia porque a “sociedade não aceita” ou prefere debater outros assuntos. As pessoas não nascem conservadoras – o conservadorismo é decorrente da disseminação de valores pelas lideranças conservadoras. Mandela dizia que ninguém nasce racista, e complemento eu, ninguém nasce homofóbico ou misógino. O conservador, que defende a pena de morte, redução da maioridade penal, repressão ao consumidor de maconha e o direito do homem agredir a mulher, foi convencido dessas aberrações por um lado da disputa política e os “identitaristas” estão aí exatamente para trazer o contraditório para o debate.

Várias pesquisas indicam que no quesito costumes a maioria da população brasileira é excessivamente conservadora. Cerca 80% são contra o direito da mulher abortar. Essa seria a bandeira central da nossa luta? Claro que não. Vamos deixar de fazer essa defesa porque a sociedade é conservadora? Também não. Se eventualmente a maioria da população fosse contra tornar inafiançável o crime de racismo, nós teríamos deixado de tramitar a proposta aprovada, porque ela diminui ou contamina a luta política no terreno da economia? Miguel chega a dizer que “é verdade que as lutas identitárias nem sempre são compreendidas como universais pela população”. Pois é, companheiro, estamos aqui para isso: fazer com que a população compreenda essas lutas, e para, ao mesmo tempo, lutar por uma ordem econômica que enfrente as gigantescas desigualdades sociais – o foco principal.

Vejamos essa parte:

“Se a esquerda decidiu não mais falar às maiorias (vistas como conservadoras), então a direita viu a oportunidade de se apresentar como a campeã das maiorias, e passou a varrer a esquerda do mapa. Antes, esse discurso pelas ‘maiorias’ pertencia à esquerda, porque a direita, por sua vez, defendia uma ‘minoria’ de proprietários e rentistas”.

De onde  Miguel tirou a ideia de que nós, da esquerda, decidimos não mais falar às maiorias? Suponho que queira dizer que a pauta identitária é nosso eixo central. Vou repetir: isso não é verdade. É apenas um discurso vazio de quem fica à procura de culpados pela nossa derrota eleitoral em 2018. Os ciristas acham que se Ciro fosse o candidato apoiado pelo PT, ele teria vencido no segundo turno, pois não carregaria consigo o elevado antipetismo existente na sociedade. Não duvido, mas tenho sérias limitações para entender como essa carga não seria transferida para o candidato junto com apoio. A derrota viria de qualquer jeito, suponho. A propósito desse tema, eu às vezes pergunto se alguém achou que a esquerda brasileira iria continuar vencendo eleições indefinidamente. O que aconteceu por aqui foi uma excepcionalidade, é raro num país capitalista de democracia burguesa uma mesma força política vencer quatro eleições seguidas, ainda mais num ambiente conservador como o nosso. E quando perdemos uma aqui, parece que o mundo acabou, que fomos “varridos do mapa”. Fomos não, Miguel, estamos em situação difícil, na defensiva, mas estamos vivos. Os 45 milhões de votos que a esquerda teve no segundo turno, os expressivos 13 milhões de Ciro no primeiro turno, mostram o contrário. A esquerda que tirou o Brasil do mapa da fome não será varrida do mapa da resistência.

Ademais, a direita tem o direito de afirmar que fala para as maiorias, mesmo isso sendo um cinismo deslavado. Não é porque “deixamos de falar para as maiorias” – isso não existe – que a extrema direita começou a falar para as maiorias. Eles sempre fizeram esse discurso, nunca se apresentaram como defensores de minorias, de “rentistas minoritários”. Os programas dos partidos conservadores nunca cravam que representam as elites, os banqueiros – todos dizem existir para defender as maiorias, os trabalhadores, para combater a pobreza, a desigualdade. Não se tira esse discurso da direita apenas por desejo, voluntarismo. É a disputa política real que vai definir quem conquista a maioria, e não previsões ou sentenças catastróficas formuladas com base em leituras enviesadas.

Miguel diz que ” Bolsonaro percebeu nosso ponto fraco e disse exatamente isso num de seus discursos de campanha: o Brasil pertence às “maiorias”. Quando Bolsonaro dizia na campanha que governaria para a maioria, não foi muito diferente dos discursos de Serra, Alckmin e Aécio, que pronunciavam frases iguais ou semelhantes, e foram derrotados. A diferença é que o contexto de 2018 foi propício a esse tipo de demagogia –  era posterior a um golpe de estado que prosseguiu com uma brutal demonização do PT e da esquerda.

“O identitarismo constituiria um fator de fragmentação e desagregação da classe trabalhadora, além de ter aberto o espaço para que a direita, em especial a extrema-direita, adotasse o discurso de ‘união nacional’ e ‘defesa das maiorias’. A direita continua avançando e ganhando eleições, para desgraça de todas as minorias”.

Aqui temos a repetição de uma questão já comentada, mas é preciso voltar. Sinceramente, pensar que a direita usa o discurso da “união nacional” e “defesa das maiorias” porque nós, da esquerda, desagregamos a classe trabalhadora com a pauta identitária é um exercício bastante fértil de imaginação. As classes dominantes fazem esse discurso desde que existem partidos políticos e campanhas eleitorais. Quando adolescente, eu via propaganda da ARENA falando isso. E a fragmentação da classe trabalhadora pode até ter algum tipo de influência da luta identitária, repito, pode até ter, mas se tiver, é secundária. Essa fragmentação se dá essencialmente em decorrência de outros fatores, que não é objeto dessa arenga. E dizer que a direita continua ganhando eleições (ganhou uma, das últimas cinco, com base em uma gigantesca fraude eleitoral) para a desgraça das minorias, é somente uma forma de realçar a argumentação de que as pautas dos que lutam diariamente contra tantas injustiças acumuladas são as responsáveis pela ascensão do genocida. Se podemos dizer que foram as lutas identitárias as responsáveis pela nossa derrota em 2018, poderíamos então dizer que elas foram responsáveis pelas vitórias em 2002, 2006, 2010 e 2014? A resposta é não para os dois cenários. E mais: o fator principal que levou a eleição de Bolsonaro foi o discurso antissistema que levaria ao fim da corrupção e da insegurança pública –  os temas relacionados com as questões identitárias foram complementares. Resumindo: tanto para a esquerda ou a direita ganhar, essa temática não foi central.

O editor do Cafezinho encerra seu artigo batendo pesado nos “identitaristas”, os tachando de oportunistas e intolerantes e os acusando de ter bloqueado o debate sobre o tema. Aqui, percebe-se nosso amigo Miguel adquirindo um pouco do estilo do guru, mas nada que desabone a ambos, dois bravos defensores da democracia e da soberania do país.

Geraldo Galindo é cronista amador.

 

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