Haroldo Lima: A esquerda ganha as eleições no México, vitória da América Latina

Terra de milenares civilizações, como a dos astecas; berço de líderes camponeses audazes como Emiliano Zapata e Pancho Vila; pátria de Lázaro Cárdenas, que em 1938 nacionalizou a riqueza do subsolo e criou a Petróleos Mexicanos, a PEMEX, nas “barbas” dos Estados Unidos; palco da revolta camponesa e indígena de Chiapas, dirigida pelo Exército Zapatista de Libertação, em 1994; foi nesse lugar, de tão grandes tradições que agora, a 1º de dezembro passado, assumiu a presidência da República um candidato de esquerda eleito para extirpar o funesto legado de décadas de neoliberalismo.

É uma grande notícia para os povos do mundo inteiro, em especial para os latino-americanos.

Nos últimos tempos, a direita e a extrema-direita têm crescido em alguns países do Ocidente. A Europa tem sido o laboratório principal dessas experiências retrógradas. Partidos de feição fascista e nazista têm tido certos sucessos eleitorais. Na Suécia, em setembro, o partido “Democratas Suecos”, ultranacionalista, de feição nazista, não chegou ao poder, mas cresceu como nunca. Corrente de mesma feição ultradireitista avançou na Itália, com vitórias sobre a esquerda e a direita de Berlusconi, embora sem força para formar um governo. Na Espanha, agora, em dezembro, a extrema direita pela primeira vez entrou em um Parlamento, o da Andaluzia. No Reino Unido, na França e Alemanha, esse crescimento da extrema direita vem desde 2017, o mesmo acontecendo na Áustria, Eslovênia, Bulgária, Polônia, Dinamarca etc.

Tudo isso ocorreu na esteira da vitória de Donald Trump nos Estados Unidos, com seu discurso xenófobo, belicista, racista, machista.

Essa corrente atrasada de direita extremada alcançou uma grande vitória agora, no Brasil, elegendo, um presidente que além de todos esses traços retrógrados é embalado pela ideia de pôr a Pátria brasileira como caudatária servil dos Estados Unidos de Trump. O reacionarismo tosco do presidente eleito no Brasil, o Bolsonaro, escandalizou até a líder da extrema direita francesa Marine Le Pen, que chegou a afirmar que “Ele (o Bolsonaro) tem dito coisas que são extremamente desagradáveis…” (Agência Estado, 2018/10/11)

Pois é neste quadro onde o obscurantismo espalha sombras e incertezas dramáticas pelo mundo afora que no México um veterano dos quadros da esquerda tomou posse na Presidência do país, Andrés Manuel López Obrador. Na oportunidade, pronunciou um discurso progressista, de esquerda, trazendo esperanças para o povo mexicano e para a Nação depauperada pelos descaminhos neoliberais.

Andrés Manuel López Obrador, ou AMLO, como é chamado carinhosamente pelo povo, é um velho militante do Partido da Revolução Democrática (PRD). Em 2014, fundou o Movimento Regeneração Nacional (Morena), que nas eleições desse ano, se juntou com o Partido do Trabalho (PT) e o Partido Encontro Social (PES), formando uma coligação chamada Juntos Faremos História, pela qual o Obrador foi candidato. O Morena elegeu a maioria no Parlamento.

O novo governo de esquerda do México enfrentará grandes problemas. O primeiro decorre da presença do seu vizinho, os Estados Unidos, que sob a direção arrogante de Trump, fustiga e quer humilhar o tempo todo os mexicanos.

Entre os Estados Unidos, o Canadá e o México existe o Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (Nafta), criado pelos Estados Unidos e a seu serviço, mas que agora, Trump está ameaçando. Como 80% da exportação mexicana é para os Estados Unidos, Obrador já se posicionou em defesa do Nafta. Trump, ademais, insiste na construção de um gigantesco muro separando os Estados Unidos do México e, insolente, quer que o México pague por esse muro. AMLO já disse que é contra o muro e que, evidentemente, não vai pagar nada.

A batalha eleitoral renhida no México primou pela violência, tendo havido 145 assassinatos políticos. Envolveu muita corrupção, disputa entre gangues e muito fake news, tal qual no Brasil.

Mas, enquanto aqui no Brasil, a direita manipulou a luta contra a corrupção, assumindo demagogicamente essa bandeira para apontar o antigo governo de esquerda como corrupto e isolá-lo, a esquerda mexicana liderada por Obrador não permitiu que isto acontecesse. Ao contrário, foi Obrador quem tomou a dianteira na denúncia da corrupção e, no seu discurso de posse, no Congresso, foi de uma precisão e contundência impressionantes. Botou o dedo na ferida e desmascarou:

“A marca do neoliberalismo é a corrupção; a privatização tem sido sinônimo de corrupção”.

Indicou o caminho de cortes em gastos a partir de seu exemplo: não usará aviões presidenciais, cortará seu salário pela metade, transformará a residência presidencial em centro cultural.

Mas o povo terá vantagens imediatas: a aposentadoria será dobrada, o salário mínimo aumentado, não haverá aumento de impostos, a educação será pública e gratuita e a saúde garantida. Quanta diferença do Bolsonaro.

Apontou que “o país se encontra em um estado de atraso, deterioração, carência e decomposição” e que “as grandes empresas gozam de privilégios fiscais e quase não pagam impostos”.

Atento à necessidade de assegurar a governabilidade, enfatizou que vai governar para toda a sociedade, para os pobres e para os ricos, à margem das ideologias ou das orientações sexuais e que os investimentos seriam garantidos.

Em país onde a presença indígena é acentuada, a posse da AMLO contou com uma cerimônia religiosa indígena, um chamado “ritual de limpeza”, do qual ele participou, proclamando-se cristão.

A vitória de Obrador sinaliza para os povos da América e do mundo um caminho diferente, oposto ao que elegeu Bolsonaro no Brasil, o caminho da dignidade e não da subserviência frente aos Estados Unidos, da construção nacional com ideias progressistas e democráticas e não obscurantistas e retrógradas.

 

Haroldo Lima é membro da Comissão Política Nacional do Comitê Central do Partido Comunista do Brasil

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