José de Souza Martins: A muleta política neoliberal

Seus resultados aqui e acolá sugerem ser engano a suposição de que o chamado neoliberalismo é sólida teoria do progresso e do desenvolvimento econômico. E que o desenvolvimento social seria sua natural decorrência. Neoliberalismo, no seu uso abusivo como ideologia importada de salvação nacional, em países subdesenvolvidos e politicamente vulneráveis, como o nosso, é apenas a versão sem seriedade nem responsabilidade do liberalismo propriamente dito. Neoliberalismo é uma usurpação ideológica.

É a doutrina econômica dos que são incapazes de pensar a economia como instrumento do desenvolvimento social e de emancipação dos desvalidos dos constrangimentos da economia que os mantém aquém do que é o propriamente humano. Os mecanismos de desumanização de alguns, desumanizam a todos. Não só os outros, mas também os responsáveis por essa vitimação do outro, os que desse processo saem minimizados no riso sem graça, na festa sem alegria, no coração sem recompensas. A condição humana tratada como estorvo da economia. O homem e a humanidade do homem como defeitos em face da ideológica perfeição econômica neoliberal.

O neoliberalismo não é apenas a ideologia política da competência para ganhar e da incompetência para distribuir. É a ideologia do homem-coisa, do homem descartável.

O Brasil tornou-se nos últimos meses a laboratório das irracionalidades neoliberais para fazer-nos retroceder aos arcaísmos que levamos mais de um século para vencer e superar. As irracionalidades estão em todas as partes. Estão na desfiguração da instituição da Presidência da República, afogada nos ditos do Facebook, nas ligeirezas do Twitter, nas bravatas a granel, nos desmentidos, nos enganos cotidianos. Já não sabemos quem nos governa, de quem é de fato a faixa presidencial. Se do mercado ou da sociedade.

O neoliberalismo aplicado ao país não é científico. Toda a arrogante presunção de que não se trata de iniquidade bem programada mal esconde a incompetência para justificar moralmente a amoralidade do poder político reduzido ao meramente econômico. Se fosse científico, seria experimentado em cobaias primeiro para, depois, se desse certo, ser aplicado em seres humanos, mediante certificação sanitária de que não é nocivo.

Expressão de grande equívoco, o neoliberalismo trata receitas de medidas econômicas toscas como doutrina social, as receitas de cortar dos que tem pouco para incrementar os ganhos de quem já tem muito. Ou cortar de quem não pode para arrumar as contas do governo, que não é empresa, que fracassa em suas responsabilidades sociais.

A economia neoliberal que supostamente criará empregos com reformas no direito laboral destinadas a empobrecer para fragilizar a classe trabalhadora, tem objetivos sociais: redução do trabalho e barateamento do trabalho. Tem também objetivos de poder: os banidos da economia são a nova base da força política do autoritarismo. O desemprego e o subemprego criam medo, insegurança, submissão. Neles, o golpe de uma nova ordem política já foi dado. É um golpe econômico com consequências políticas.

Fábricas são fechadas, trabalhadores ficam desempregados com a modernização econômica desvinculada de suas determinações sociais. Os documentários de Michael Moore sobre os efeitos dessas concepções nos EUA, servem aqui também. A incerteza que cerca o fechamento da Ford em São Bernardo já foi descrita nos documentários sociais de Moore.

Ganhos especulativos são uma diversão de quem tem a consciência cindida. De quem se tornou agente de um sistema econômico que separou e usurpou a enorme importância das técnicas de acumulação de capital e satanizou os valores e princípios da sociedade que por largo tempo foram premissas e condições do lucro e do ganho. É preciso ter em conta que, historicamente, nosso sistema econômico atual triunfou quando a sociedade perdeu a vergonha da amoralidade do lucro pelo lucro.

Ainda nestes dias estive relendo as cartas do padre Manoel da Nóbrega, jesuíta do século XVI, quando o Brasil estava sendo inventado por gente como ele. Um dos grandes responsáveis pela obra da civilização no Brasil. Frequentemente ele menciona cautelas para evitar o deslize do ganho impróprio nas questões econômicas. A economia era regulada pela moral. O lucro indevido era sujo e pecaminoso.

Sobreviveram, não obstante o capitalismo que temos, crendices residuais que podem ser escavadas arqueologicamente na memória social e popular. A mais frequente é a do pacto com satanás para sobrepor o ganhar ao esforço do trabalho duro, de resultados demorados. Há ritos prescritos, complicados, para realização do pacto. Portanto, não é questão de mera opção dos que foram capturados pelo afã de riqueza sem ética.

 

José de Souza Martins é sociólogo

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