Julieta Palmeira: Por que precisamos falar de uma masculinidade nova?

A nossa campanha de combate a masculinidade tóxica tomou conta da mídia e das redes sociais, ampliando o espaço de debate sobre um tema que considero relevante, principalmente, na abordagem do enfrentamento à violência contra as mulheres. Nas redes sociais da Secretaria de Políticas para Mulheres do Estado da Bahia surgiram questionamentos e perguntas sobre o significado de masculinidade tóxica. Desde o lançamento da campanha, a pesquisa on-line do termo se intensificou.

A violência de gênero contra as mulheres, ou seja, aquela que ocorre exclusivamente pelo fato de ser mulher, tem alcançado índices alarmantes em nosso país. Houve um aumento de feminicídios na Bahia em 2019 em relação aos anos de 2017 e 2018, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública. É preciso punir quem comete tais crimes e alcançar uma proteção do Estado mais efetiva às mulheres, em todos os níveis.

Na base da violência contra as mulheres está o machismo e a cultura que faz apologia a um padrão de masculinidade vinculado à agressividade. Chamamos de tóxica, a masculinidade associada à violência, à imposição e que para se expressar necessita da subordinação da mulher ao homem, além de reivindicar que a mulher, incluindo o seu corpo, é propriedade do homem com o qual tem relações intimas, seja marido, companheiro ou namorado.  Uma masculinidade que considera expressar sentimentos, sinal de fraqueza e que um homem para ser homem tem que se destacar no desempenho sexual e não pode recusar sexo.

Essa visão está na raiz da violência doméstica e familiar e se volta também contra o homem, que é estigmatizado e vive num intenso esforço de corresponder ao padrão vigente.   É também a masculinidade tóxica que permeia, por exemplo, os altos índices de morte de homens no trânsito, em sua maioria por imprudência ou agressividade.

Quando nos referimos aos índices de violência de gênero temos que considerar que isso tem a ver com pessoas e no caso, mulheres, em sua maioria negras, que sofrem o impacto de um sistema de desigualdades que interliga a desigualdade social, o racismo estrutural e o machismo, expressos no sexismo, na misoginia, na masculinidade tóxica. Não dá pra continuar educando homens para serem agressores e transformar mulheres em agredidas.

Por tudo isso é que precisamos falar de uma nova masculinidade que não se estabeleça pelo poder de mando do homem sobre a mulher. Quando duas pessoas resolvem conviver afetivamente, não tem a ver com subordinação de uma pessoa à outra. O ambiente privado de convivência entre duas pessoas deve ser para compartilhar a vida, sonhos, desejos e objetivos que constituem uma vida plena.

 

Julieta Palmeira é secretária de Estado de Políticas para Mulheres da Bahia 

Textos Relacionados
Deixe seu recado