Luciano Rezende Moreira: Não chorem, meus filhos 

O discurso pessimista parece predominar nas redes sociais dos usuários mais identificados com a esquerda brasileira. Estivéssemos em uma partida de futebol, a torcida adversária entoaria que o “chororô não tem fim”.

Mas a política é diferente de um Fla-Flu. O Facebook não pode servir de divã, tampouco o Twitter funcionar como terapia coletiva e, muito menos, o WhatsApp se prestar a disseminar correntes infindáveis de notícias negativas, o tempo todo.

A vida é luta renhida, como nos ensinou Gonçalves Dias em sua linda Canção do Tamoio: “Não chores, meu filho / Não chores, que a vida / É luta renhida: Viver é lutar.”

Nesse mesmo poema há outra mensagem importante: “No arco que entesa / Tem certa uma presa / Quer seja tapuia, Condor ou tapir”. O romantista brasileiro ilustra em seus versos a importância em se saber para aonde apontar a flecha.

De repente, justamente quem mais defendia o povo brasileiro, começou a direcionar sua metralhadora giratória contra esse mesmo povo pelo fato de Bolsonaro ter sido eleito e ainda manter sólida base eleitoral, sobretudo entre os mais pobres. Esquecem-se da brutal ofensiva midiática que as massas são submetidas dia e noite pelos diversos aparatos ideológicos da burguesia.

De uma hora para outra, antigos aliados políticos começaram a ser detonados como inimigos de classe. Basta Lula abrir a boca e expor seu pensamento para ser agredido por um campo da esquerda. É só Ciro expor um ponto de vista que outro campo também se arma de pedras e pau.

O justo combate à burguesia parasitária, enquanto classe social, deu lugar ao apedrejamento do burguês enquanto indivíduo. Daí, assistimos uma multidão se insurgir mais contra a patroa que abandonou uma criança de cinco anos à própria sorte em um elevador em um prédio de luxo, do que propriamente contra o sistema que a brutalizou a tal ponto. Ou, pior: um ex-banqueiro ser desqualificado pela sua origem de classe, e não por suas convicções de classe.

O caráter pedagógico de elevação do nível político das massas que sempre tão bem caracterizou a esquerda brasileira, parece ter dado lugar a um enfrentamento raso e desnecessário contra muitos que, também, são vítimas dos valores capitalistas, fundamentalmente o neoliberal. As flechas voam em todas as direções.

Muito compreensível o desencanto do movimento democrático e progressista no Brasil. Sobretudo nos últimos seis anos, a batalha se tornou encarniçada a ponto de a extrema direita assumir o poder e promover uma agenda reacionária, obscurantista e de clara feição fascista com expressivo apoio popular, alicerçada em pelo menos 30% da população. Mas já é passada a hora de levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima.

É um erro julgar que o bolsonarismo que aplastou nosso país foi resultado de erros no campo da esquerda e ficar se autoflagelando eternamente num vale de lágrimas. É como culpar a vítima pelo estupro. Talvez esse ou aquele comportamento político tivesse adiado o Golpe, postergado-o. Mas a violência do Golpe é resultante de outros fatores: históricos, estruturais e de classe.

Um estado permanente de desalento só encontra espaço para quem ainda não adquiriu a visão histórica da análise política. Bolsonaro e seu clã não será derrotado num passe de mágica, num processo de impeachment ou mesmo será vencido nas urnas. A derrota do bolsonarismo será obra de gerações e consumirá nossos esforços por décadas ou quem sabe séculos.

Para 20 ou 30% da população brasileira Bolsonaro é o símbolo dos valores impostos pelo colonizador ao longo dos séculos. São também vítimas históricas desse brutal processo de dominação de nosso país que, nos últimos dois séculos se revezou entre Inglaterra e Estados Unidos.

Nossos mais sublimes esforços não são direcionados para essa parcela da sociedade. É preciso entender que esses 30% são os mesmos que se indignaram contra uma modesta iniciativa dos governos Lula e Dilma que dificultava a banalização da cultura de os pais baterem em seus filhos como forma de “educá-los”, e babavam pelos cantos da boca exigindo a volta do direito de surrá-los para não virarem bandidos. Era esse o discurso contra a tal “Lei da Palmada”.

É preciso compreender que esses 30% são os mesmos que aplaudiam Dória de pé até pouco tempo atrás quando esse mesmo governador de São Paulo mandava jogar água fria em pleno inverno paulistano nos moradores de rua da capital, autorizava a Polícia Militar espancar professores grevistas ou até mesmo quando ele propunha a oferecer ração para os pobres (afirmando que pobre não tem hábito alimentar). Até aí, tudo bem. Bastou Dória adotar uma agenda mínima de responsabilidade e seguir as recomendações da Organização Mundial de Saúde para se transformar em um, nas palavras do próprio Bolsonaro, “bosta”.

Não há tempo a se perder com essa fração da sociedade no curto prazo. Nenhuma lágrima a verter. A luta, como dito acima, é de longo prazo. Deve ser voltada para as novas gerações e focada nos 70% restante da sociedade brasileira que ainda preserva alguns princípios básicos e elementares de justiça social, democracia e respeito ao próximo.

E para isso é necessário mudar o astral. Gostem ou não de Lula é admirável sua tenacidade em ter resistido à morte de sua companheira de vida que não resistiu às pressões da Gestapo de Sérgio Moro, a uma prisão política que lhe foi imposta por “atos indeterminados”, a dor de perder um neto na prisão e ver sua biografia desconstruída por um séquito de facínoras. Mas Lula parece ter aprendido com a história de maneira prática e não se desanima. Mantém a indignação necessária, controlando-a para que não se transforme em ódio ou desânimo.

É fundamental, portanto, “defender a alegria como trincheira” de luta. Esse, inclusive, é um trecho de uma linda canção dos uruguaios Daniel Viglietti e Mario Benedetti, chamada “Defensa de la alegria”. Dois outros exemplos de resistência ao fascismo sem perder a ternura, jamais.

Venceremos! Com a cabeça erguida e com uma mensagem de otimismo de um novo futuro que se descortinará após superarmos mais este obstáculo, entre tantos outros já suplantados na construção de nossa grande nação.

 

Luciano Rezende Moreira é engenheiro agrônomo (UFV) e professor doutor do Instituto Federal de Brasília.

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