Luciano Rezende: Renunciar legado de Lula é grave erro da esquerda

Muito provavelmente Lula morrerá na cadeia. A onda de ódio que tomou conta do Brasil, disseminada pela extrema-direita, é a retaguarda de todas as mais absurdas decisões jurídicas/políticas que mantêm e manterão Lula fora do jogo político.

A não ser que ocorra uma reviravolta típica das viragens nas correlações de forças (o que no momento parece muito distante de ocorrer), Lula é carta fora do baralho para as futuras eleições.

Ademais, é sempre de bom alvitre apostar na renovação dos quadros políticos e na ascensão de novas lideranças, a fim de não se ficar caudatário desta ou daquela grande figura.

Mas daí, renegar a figura de Lula e tudo o que simboliza seu legado de lutas é um erro crasso de qualquer democrata.

Certamente Lula cometeu erros (o que é diferente de crimes). Mas seus detratores o julgaram e o condenaram, no geral, não por seus equívocos, mas por seus acertos e seus méritos.

Lula está preso por ter dado centralidade à Petrobras como empresa comprometida com os interesses do país, fazendo valer sua missão institucional de outrora que era promover o desenvolvimento do Brasil e não só o enriquecimento de seus acionistas.

Lula está preso por ter melhorado a vida da milhões de brasileiros, provocando a antipatia da Casa Grande que se vê insultada ao confrontar um trabalhador de cabeça erguida a reivindicar mais direitos.

Lula está preso por não ter sido submisso aos governos dos EUA, ainda que tenha sempre privilegiado as boas relações entre os dois países.

Lula está preso por ter tido a audácia de mostrar que um simples homem do povo, quando inserido na luta política, é capaz de transformar uma onda de crise em uma marola, desmoralizando o receituário neoliberal.

Mas Lula também está preso por ter apostado nas instituições republicanas e ter dado a elas total liberdade para atuar, mesmo ciente de que o Estado burguês é refratário a todo e qualquer corpo estranho à ideologia da superestrutura capitalista. E pagou caro por seu “republicanismo”, digamos, ingênuo.

O legado dos governos Lula e Dilma (que não foram só do PT, mas um governo de coalizão que aglutinou outros partidos de esquerda e do centro, inclusive o PDT de Ciro Gomes) é imenso do ponto de vista da experiência conquistada em se governar um país por tanto tempo (treze anos), mostrando-se imensamente superior do ponto de vista político e administrativo que os governos Temer e Bolsonaro.

Desvencilhar-se da figura de Lula agora seria muito mais que oportunismo. É um ato de conveniência eleitoral momentânea, baseando-se apenas em interesses circunstanciais.

A fala grossa de Ciro Gomes e seu irmão Cid Gomes, reiterando ser o PT uma quadrilha e não reconhecendo Lula como preso político, segue aquilo que no jargão popular se diz: “um cão danado, todos a ele”.

Muito bem fez o Partido Comunista do Brasil (PCdoB) que, por mais discordâncias e enfrentamentos que manteve com Luiz Carlos Prestes (tal como o célebre confronto entre o “Cavaleiro da Esperança” e o grande João Amazonas durante o quinto Congresso do Partido, em que Prestes acusava Amazonas de fracionismo) soube reconhecer os seus inúmeros méritos, valorizando mais o que une, daquilo que porventura possa dividir.

Mais cedo ou mais tarde o nome de Lula voltará a resplandecer com herói nacional. Os que hoje enveredam pelo oportunismo político de o abandonar, será marcado por este ato de covardia.

Nada mais legítimo do que trilhar um caminho próprio ou diferente daquele escolhido pelo PT. A crítica ao hegemonismo petista é mais que plausível para referendar esta decisão.

Todo respeito aos que lutam pela construção de um novo bloco de oposição, bem como a reivindicação de se construir outros nomes, rompendo com o ciclo lulista.

Entretanto, tudo isto só é verdadeiramente autêntico para com um novo projeto nacional de desenvolvimento democrático quando não há necessidade de se pisar no prato em que se comeu.

Lula é um patrimônio do povo brasileiro, assim com Prestes, Getúlio, Amazonas e tantos outros. Renegá-lo é negar a história de lutas de nosso povo e fazer o jogo das elites.

 

Luciano Rezende é professor da Universidade Federal de Viçosa e integrante do Comitê Central do PCdoB

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