Osvaldo Bertolino: Os mestres e os métodos fascistas de Paulo Guedes

Antes de tomar posse, o agora ministro da Economia, Paulo Guedes, disse que pretendia dar importância ao “capital humano”. “Os economistas liberais sempre tiveram uma outra face, a do capital humano, a importância de investimento em saúde e educação. Pretendemos dar dinheiro para voucher (vales individuais) para saúde, creche e educação, investir na formação da criança de 0 a 9 anos”, afirmou.

Na posse, ele ignorou o que dissera e, em tom de ameaça, prometeu um projeto de emenda constitucional desvinculando recursos da saúde e da educação que seriam alocados no “ajuste fiscal”, caso a “reforma” da Previdência Social não saia com urgência. Seria o seu “Plano B”. Mas o essencial desse exercício de retórica é a sua tese de que o “mercado” é o principal mecanismo de inclusão social, que permite redistribuir dinheiro de “setores privilegiados” da sociedade para a saúde e a educação.

Certeza dogmática

Guedes também teorizou sobre o que teria sido a condução da economia brasileira desde a década de 1980, que seria concentrada no Estado, o que levou o país a desperdiçar a oportunidade de crescer como os “tigres asiáticos”. É um sofisma. Os “tigres” afiaram suas garras às custas da ligação umbiliocal das suas economias ao expansionismo norte-americano do pós-Segunda Guerra Mundial. E, exatamente por isso, quando a crise do sistema explodiu na década de 1990 foram frontalmente atingidos.

As nuvens de capitais rentistas que vagam pelo mundo já se multiplicavam fazendo arbitragens a partir das mudanças de cotações de moedas, mercadorias, títulos de dívidas e todo papelório inventado pelos financistas internacionais. Essa massa de dinheiro já era capaz de quebrar países ou instituições econômicas em poucas horas e com poucos movimentos. Foi o que aconteceu, por exemplo, com o México em meados dos anos 1990, com o banco inglês Baring — de mais de 200 anos, posto a pique por um especulador depois de sobreviver até a Napoleão Bonaparte — e com os “tigres asiáticos”.

Guedes e seus discípulos falam de liberalismo sem a menor preocupação com esses fatos. Na verdade, eles estão tomados por aquela certeza dogmática e sectária que se formou desde a crise de meados da década de 1970, uma ideologia que recebeu o nome de neoliberalismo e se expandiu sob a denominação de “globalização”. Desde então, esse modelo econômico tenta erigir sistemas políticos para sustentar sua lógica, algo mais uma vez em fase de experimentação no Brasil. Guedes é a representação acabada dessa ideologia.

Teoria fútil e perversa

Os fatos e os personagens ocorrem duas vezes na história: a primeira como tragédia e a segunda como farsa, lembrava Karl Marx, num processo ”em que a tradição das gerações mortas volta para assombrar a memória dos vivos”. É exatamente esse o caso das ideias de Paulo Guedes — a volta triunfal da ideologia liberal, com nova roupagem e registrada com o nome de neoliberalismo.

A morta-viva tem no economista norte-americano Milton Friedman um de seus papas. Ele ganhou o Prêmio Nobel de Economia em 1976 e liderou a corrente liberal que se opôs ao pensamento de John Maynard Keynes. Proclamado herdeiro do pensamento de Adam Smith, o economista é equiparado, por seus admiradores, a personalidades como o próprio Keynes, Joseph Schumpeter e Paul Samuelson. Mas há avaliações de que daqui a 50 anos ninguém vai ler uma linha do que ele escreveu.

A teoria de Friedman, além de fútil, é perversa. O problema é que o seu pensamento influenciou fortemente líderes políticos, como o ex-presidente norte-americano Ronald Reagan e sua contemporânea, a ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher. Suas ideias também serviram de inspiração para a onda antissocialista. Vaclav Klaus, que mais tarde se tornaria o primeiro-ministro da República Tcheca, foi um dos que seguiram as lições de Friedman na construção de um novo modelo econômico para as ex-repúblicas socialistas.

O Fim da História

Para os seguidores de Friedman, o desenrolar dos acontecimentos no mundo acabou revelando que os revolucionários que deram certo não foram Karl Marx, Fridrich Engels, Vladimir Lênin e Mao Tse-tung. Foram Friedman, Reagan e Thatcher. Teria triunfado, sobre os escombros do muro de Berlin, a tese de que a economia de “livre mercado” ganhara o mundo.

Em 1992, o também norte-americano Francis Fukuyama chegou ao ponto de publicar um livro que incendiou os debates internacionais, intitulado O Fim da História. Para ele, as ideias de Friedman em ação era uma demonstração de que o capitalismo havia superado em definitivo todas as demais experiências de organização social. Segundo Fukuyama, o capitalismo de panelinhas, somado aos setores financeiros especulativos, era a fórmula definitiva da evolução política.

A baronesa Thatcher foi a primeira a alterar o consenso keynesiano, segundo o qual o centro da economia deveria ser ocupado pelo Estado. Ela enfrentou essa batalha com ferocidade. ”Nunca senti qualquer simpatia pelo socialismo”, disse Thatcher. ”Já estava ficando óbvio para as pessoas que o caminho socialista era sinônimo de declínio. Dá para imaginar isso? As pessoas aceitando o declínio?”, afirmou.

Os neoliberais são conhecidos pela diferença entre os seus discursos e as suas práticas. Na Grécia antiga, seriam exímios sofistas. No mundo de hoje, podem ser chamados de vigaristas. Thatcher jogou com as palavras com o mesmo cinismo de Friedman e Guedes. Expoente maior da chamada Escola de Chicago, ele encarnou como ninguém a defesa radical do liberalismo canhestro das últimas décadas.

Uma de suas esquisitices era estabelecer que os Estados Unidos são 50% socialistas por conta do papel que o Estado exerce na economia daquele país. Uma simplificação infantil. “Os Estados Unidos são um mercado livre? Não! No meu país, as despesas de todos os níveis de governo chegam a 40% do Produto Interno Bruto (PIB). Além disso, as regulações colocam um custo de mais 10% do PIB nos negócios. O resultado é que os Estados Unidos hoje são 50% socialistas”, dizia ele.

Grande Depressão

Para Friedman, qualquer ideia de regulação era uma coisa diabólica, socialista. Ele era a favor até da extinção do Fundo Monetário Internacional (FMI). Em sua visão, os empréstimos do FMI retardam a velocidade de “ajustes necessários”, estimulam a persistência de políticas equivocadas e falsificam a percepção de risco dos bancos credores. E, como ardoroso defensor da liberalização cambial, Friedman se enfurecia quando ouvia dizer que o fracasso de um regime de câmbio fixo estimulado por quase uma década pelo FMI era atribuído à falência do liberalismo.

Outra implicância de Friedman era com a política monetária do banco central norte-americano, o Federal Reserve (Fed). Ele atribuiu a erros do Fed boa parte da culpa na derrapagem rumo à Grande Depressão. Havia, para Friedman, uma regra segundo a qual para combater uma teoria nada melhor do que outra teoria. Por isso ele enfrentava os conceitos keynesianos com teses que na verdade eram retalhos de velhas ideias liberais lançadas por terra ao longo da maior parte do século XX. O que sobra em estado puro de sua teoria era a perversidade social.

Uma de suas principais críticas recai sobre a noção de “responsabilidade social” das empresas. “A empresa pertence aos acionistas. Sua missão é gerar a maior quantidade possível de lucros para eles, respeitando as leis de cada país”, dizia ele. Segundo Friedman, o conceito de “responsabilidade social” é ”fundamentalmente subversivo”. É evidente que se essa ideia fosse popularizada Friedman seria visto como uma pessoa próxima do fascismo.

Mola propulsora

As empresas seguidoras desse conceito podem, sem dúvidas, ser responsabilizadas por boa parte dos males do planeta Terra. Fosse a empresa uma pessoa, esse indivíduo seria um psicopata. Alguém capaz de financiar tiranias como o nazismo e o fascismo, de comprar a imprensa e de usar o aparato policial para cometer assassinatos de opositores aos regimes políticos que protegem suas práticas.

Trata-se de uma exacerbação da lógica que identifica no indivíduo a grande mola propulsora do desenvolvimento econômico. Chega-se, assim, a um quadro extremado, um ambiente em que, segundo Friedman, não há, sob hipótese alguma, almoço grátis. Quem não se encaixa nessa regra por não possuir as condições de, mesmo pressionado, produzir mais, é frequentemente ignorado. Friedman dizia que o sujeito só nada quando a alternativa a isso é afundar e morrer afogado.

Ele apostava que a melhor maneira de produzir bons nadadores é não fornecer coletes salva-vidas nem equipes de salvamento. Há grandes diferenças entre essas ideias e as do fascismo? Parece que não. Como exemplo, temos o caso da ditadura do general Augusto Pinochet, que já no início da década de 1970 implantou as ideias de Friedman no Chile.

 

Osvaldo Bertolino é jornalista, escritor e editor-executivo do Portal Grabois.

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