Paulo Moreira Leite: A operação ideológica do antipetismo

A visão convencional sobre a eleição de Jair Bolsonaro costuma apontar o “antipetismo” como um fator decisivo da campanha presidencial. Apresentado como se fosse um diagnóstico médico para alguma enfermidade, e não um ponto de vista político, sujeito a todo tipo de apoio, crítica e  questionamentos, o “antipetismo” teria sido o motivo que impediu Fernando Haddad de reunir os votos necessários para garantir a vitória no segundo turno.

Está claro que uma parcela significativa do eleitorado não vota, nunca votou e nunca irá votar no PT. Outra parcela desencantou-se com os governos petistas e decidiu fazer outras opções. Faz parte das democracias.  Provisórias ou definitivas, as mudanças opinião são um dado essencial da vida política, pois permitem a toda sociedade fazer ajustes e acertar seu caminho conforme a vontade da maioria.

Estamos falando de outra coisa, porém. Embora seja o mais popular partido político do país, o único com aprovação popular acima dos 20 pontos — as outras legendas não chegam a dez — o PT é tratado como se fosse um paciente terminal, a quem nada mais pode ser oferecido além da chance de confessar os pecados e fazer uma autocrítica.

Sabemos que nunca é cedo demais para um partido político avaliar honestamente seus erros e deslizes. Mas, num país com o Brasil, no qual até o passado está sujeito a alterações importantes,  é bom evitar avaliações apressadas.

Uma semana depois da eleição presidencial de 2018 pode-se afirmar com mínima chance de erro que o Partido dos Trabalhadores só não está distribuindo convites para a festa de posse no Planalto pela quinta vez consecutiva porque em julho de 2017 o juiz Sérgio Moro, futuro ministro da Justiça do adversário do PT na eleição presidencial, condenou o então candidato a presidente do partido a uma pena de 9 anos e seis meses de prisão, em sentença que contraria todas as provas disponíveis nos autos. Alguma dúvida?

Minha avaliação é que o PT cometeu erros importantes em sua história política a começar pela ilusão de que fora admitido no clube fechado da elite brasileira a partir da vitória de 2002. Este engano levou a uma postura inaceitável de tolerância com abusos e desvios cometidos pelos verdadeiros donos do poder politico ao longo da história.

Este fato não pode esconder, contudo, um histórico único de mudanças políticas favoráveis ao interesse da maioria dos brasileiros e brasileiras,  com melhoria na distribuição de renda, ampliação dos empregos com carteira assinada e vagas nas universidades, que seria ocioso recordar aqui.

Mais útil é recordar o esforço sistemático, frequentemente desonesto, de criminalização do partido, pois é daí que surge o ingrediente fundamental do antipetismo. Já que não é possível negar a eficácia de políticas públicas destinadas a proteger os menos protegidos, pois a maioria dos interessados sente a diferença no dia a dia, procura-se retirar sua legitimidade.

Focada exclusivamente no esforço de apontar irregularidades a Globo alimenta o caldo de preconceitos contra o Bolsa Família desde outubro de 2004, quando fez uma longa reportagem-denúncia sobre a distribuição de benefícios.

No livro “História do PT” o professor Lincoln Secco registra que, entre junho e setembro de 2005, apogeu da AP 470, o Mensalão, a VEJA dedicou 19 de suas 22 capas possíveis à denuncias diretas contra o PT — cinco tentavam atingir Lula pessoalmente.

Para confirmar que o quadro tendencioso e negativo permanece o mesmo e em certa medida até se agravou, pode-se consultar o  Manchetômetro, estudo comparativo elaborado pelo professor João Feres Junior, uma ótima referência a respeito, incluindo a campanha de 2018.

Minha opinião é que o anti petismo é a grande mistificação ideológica de nosso tempo, um “anticomunismo”  atualizado para os combates atuais contra os direitos dos trabalhadores e dos superexplorados. Sua finalidade é remover conquistas de outro momento histórico. A Guerra Fria era o cenário de uma disputa econômica, política e também ideológica, na qual havia a perspectiva de superação do capitalismo ou, no mínimo, a construção de sistemas equilibrados de bem-estar social como evolução inevitável da humanidade.

No mundo atual, esse debate não se encontra no horizonte das alternativas imediatas mas a máquina de guerra não pode descansar. O velho anticomunismo opera através do Judiciário, criminalizando adversários políticos como bandidos comuns e até terroristas, em caso de necessidade. Essa é a máquina que alimenta o “antipetismo”.

No Brasil que assistiu a construção do PT como primeiro partido operário de massas, aqui se localiza o grande disfarce conservador, o verniz  indispensável à imposição de uma visão antidemocrática e excludente, que  não ousa dizer seu nome e tem como essência o silêncio do outro — aquele que só deve abrir a boca para manifestar adesão ao discurso do inimigo.

No fim de um percurso de década e meia, em 2018 este processo deu no  que deu e chegou aonde todos sabiam que iria chegar:  a aparição de Jair Bolsonaro e o revanchismo militar, principais beneficiários do esforço de deslegitimação dos políticos e seus partidos levado a cabo no Brasil por Sérgio Moro, que em janeiro assume o Ministério da Justiça. É possível que muitos antipetistas tenham ficado decepcionados com o sim de Moro a Bolsonaro. De minha parte, parece coerente.

Construiu-se no país um ambiente político no qual o debate democrático, construtivo, foi sufocado pelo irracional, pelo medo e pelo ódio. Como não há e nunca houve interesse real em debater o histórico do PT, tanto para apontar problemas inegáveis como reconhecer soluções  indiscutíveis apresentadas a questões que pareciam insolúveis, a opção preferencial tornou-se o silêncio forçado. O horizonte real do antipetismo é eliminar o PT.

Alguma dúvida?

 

Paulo Moreira Leite é colunista do 247, ocupou postos executivos na VEJA e na Época, foi correspondente na França e nos EUA

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