Pedro Castro: Uma nação em luto

Infante, assisti o primeiro jogo da minha vida do Clube de Regatas do Flamengo. No então maior estádio do planeta, o Maracanã. Empatamos em 1x 1 com o América. Lá, meu saudoso pai, Pedro Castro, me recordou que quando bebê, em Santiago do Chile, na condição de filho de exilado político, eu frequentava os jogos do Colo-Colo, time chileno. Este nome, inclusive, é a denominação de outra agremiação em Ilhéus inspirada no nome de um dos mais populares times do “país-istmo”.

Perdão, Colo-Colo. Eu sou Clube de Regatas do Flamengo. Filhos, namorada, mãe, amigos…Perdão. Não há paixão mais avassaladora na minha vida do que ser flamenguista. Estava eu no Flamengo e Botafogo recentemente no Engenhão e nos gols do Flamengo abraçava e beijava pessoas desconhecidas. Cheguei a ficar ajoelhado e gritando “obrigado, Deus” num gol que logo depois foi…anulado. Que King Kong, amigos leitores. Mas minha alma saiu lavada. 2 x 1 em cima do Foguinho.

É um sentimento muito intenso e avassalador. Quando levamos um gol num jogo, eu fico “de mal” com o time, grito que os jogadores estão milionários, xingo os atletas e até desligo a TV, com muita raiva. No outro domingo, quando ganhamos, Diego e cia. são na minha percepção os semideuses.

Tivemos um centroavante chamado Gaúcho que morava no meu prédio. Ele não gostava de mim. Mas ele tinha suas razões. Porque quando ele não jogava bem, eu descascava ele todo na portaria do prédio.

Toda viagem ao Rio me presenteio com o “manto sagrado”, obviamente uma camisa do Flamengo.

Pedro Castro pai era conselheiro do clube e morávamos a 50 metros da lendária sede da Gávea. Comunista que era, meu pai estava sempre na oposição e voltava exaltado das reuniões de conselheiros. Quando esse cara (que foi a pessoa mais importante da minha vida) faleceu, obviamente fui à Gávea comprar a bandeira do Mais Querido de Todos para colocar no caixão. Para minha surpresa, fui informado pelos funcionários do clube que a bandeira seria doada pelo CRF para o enterro do meu herói. E aí foi demais. Disseram que haveria um minuto de silêncio no próximo jogo do Mengão.

Esportes na Gávea? Quase todos. Fui às aulas de basquete, volleyball, ginástica olímpica etc. No time do futebol de salão, inventei de ser goleiro. Ia todo fantasiado. Um pavão. Num jogo eu levei um frango horroroso. A bola passou por debaixo das minhas pernas e decidi abortar ali uma “promissora” carreira de goleiro. Também frequentei o futebol society. E depois de várias tentativas, o ápice. Consegui uma vaga na equipe de polo aquático do Flamengo. Era show jogar o Campeonato Carioca. O Fla é referência nacional também no polo aquático e em diversas modalidades esportivas.

O convívio social na Gávea é uma novela á parte. Apresentação de samba, piscina, amizades. Assistir um pouco os “coroas” jogando bocha e uma palestra do nosso ídolo Adílio. E o nosso maior ídolo chama-se Artur Antunes Coimbra, o “Zico”. Foi um período muito difícil após a entrada criminosa do Márcio (toc, toc, toc) Nunes no Zico. Um dia o Zico cruzou comigo na Gávea, viu aquele garoto e passou a mão no meu cabelo. Naquele dia eu não lavei a cabeça.

Em outro dia, lá estava o Zico correndo na Gávea depois da contusão e um amigo meu metido a palhaço, o Rod (que é Polícia Federal, professor de boxe e vai me matar se ler isso) gritou: “Zico, tu tá bichado”. Nossa… O Galinho de Quintino foi andando em nossa direção e eu e o Rod (que de bobos nunca tivemos nada) nos escondemos atrás de uma placa de publicidade. Mas nosso amigo Dedé deu mole e não se escondeu. Eis a frase do Zico, irritadíssimo: “Sim, mas a sua mãe também está bichada”. E continuou a corrida. Obviamente, a essa altura do campeonato eu e o Rod dávamos cambalhotas de risos.

Ah, caramba. Hoje é o dia mais triste da nossa gloriosa história de 123 anos. Vamos chorar tudo que temos para chorar. E vamos, em homenagem aos meninos, pra cima dos adversários. Vamos ganhar tudooooooooo. Pois temos time para isso. Somos a Maior Torcida do Universo e uma nação com o PIB maior que muitos países. Somos CLUBE DE REGATAS DO FLAMENGO.

Em memória de Christian Esmério; Arthur Vinicius; Pablo Henrique da Silva Matos: Bernardo Pisetta; Vitor Isaías e Athila Paixão.

 

obs- Hoje é dia de flamenguista postar foto com o “manto sagrado”

 

Pedro Castro é jornalista

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