Presidente da Comissão de Vítimas da Ditadura relativiza os crimes

O presidente da Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos, vinculada ao Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Marco Vinicius de Carvalho, relativizou os crimes cometidos pelos militares, durante a ditadura civil-militar (1964-1985). Na reunião virtual da última sexta-feira (26/06), Carvalho se referiu às vítimas como pessoas que “se julgam ter sido atingidas pelo regime” e afirmou que elas eram “cooptadas por ditadores de esquerda”.

A declaração foi duramente condenada por familiares, que elaboraram e publicaram uma nota de repúdio contra o presidente da Comissão, aliado da ministra Damares Alves. Além de críticas à fala ‘desrespeitosa’ de Marco Vinicius de Carvalho, o texto ainda aponta os retrocessos que a luta pela memória no Brasil tem sofrido com o governo Bolsonaro.

“Esse conjunto de arbitrariedades que estão sendo praticadas por esse (des) governo que defende torturadores, além de afirmar que ‘a Ditadura matou pouco, tinha que ter matado muito mais’, é crime de lesa pátria, lesa humanidade”, diz um trecho da nota. Leia a íntegra:

 

Diante de mais uma atitude desavisada e irresponsável do atual presidente da Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos, vinculada ao Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Sr. Marco Vinicius de Carvalho, nós, familiares de desaparecidos políticos do Brasil, vimos a público para expor o que se segue:

Repudiamos rigorosamente a postura descabida do acima referido presidente, indicado pela ministra de Estado, Damares Alves, ao emitir parecer sobre um processo já deferido anteriormente, buscando argumentar e opinando pelo seu indeferimento, enquanto relator, na última reunião virtual dessa Comissão, no dia 26 de junho de 2020. O citado presidente/relator se refere às vítimas da ditadura como pessoas que “se julgam ter sido atingidas pelo regime”, afirmando que eram “cooptadas por ditadores de esquerda”.

Ao mesmo tempo, apoiamos incondicionalmente a rápida e precisa resposta da companheira Diva Santana, que nos representa na referida Comissão: “Presidente, não ‘me julgo’ atingida, não. Eu e minha família ‘fomos’ atingidos. Minha irmã foi executada de joelhos e nem sei onde seu corpo está até hoje. Minha irmã não foi cooptada, tinha ideias próprias”. E concluiu: “Desrespeitou a mim e a todas as famílias”.

Marco Carvalho pediu desculpas, que não foram aceitas por Diva: “Não desculpo, nem peço desculpas”.

Nós também não! Porque não aceitamos o desmonte que está sendo executado contra a Comissão da Anistia e a Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos, entre outros absurdos, como indeferir processos deferidos anteriormente por ilustres presidentes que já passaram pela Comissão. Esse conjunto de arbitrariedades que estão sendo praticadas por esse (des) governo que defende torturadores, além de afirmar que “a Ditadura matou pouco, tinha que ter matado muito mais”, é crime de lesa pátria, lesa humanidade. Descaradamente um desrespeito a todos os brasileiros que lutaram pela Democracia e foram torturados e mortos pelos agentes do golpe de 1964. Está claro que o Sr. Marco Carvalho e todos os que estão hoje no poder querem o fim da Lei 9.140/95, único instrumento que possibilita o esclarecimento sobre os desaparecimentos de pessoas por motivos políticos, além do reconhecimento pela UNIÃO, em reparar as famílias pelas mortes dos seus parentes, ocasionadas pelo regime militar.

Familiares de Desaparecidos Políticos Durante a Ditadura Civil Militar do Brasil.

Brasil, 27 de junho de 2020.

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