Queila Patricia: Neutralidade política: ela existe?

Permeia a nossa sociedade a tal da neutralidade Política. Mas será que ela realmente existe e está presente nos indivíduos? O que há por trás da negação da Política? Um dos grandes clássicos da Filosofia, História ou Ciência Política, como queiram classificá-lo, Aristóteles, já dizia que: “o homem é, por natureza, um ser vivo político.”  Como dizer e se afirmar neutro ou não Político quando manifesto minha opinião ou ideia a partir de algo, de um fato ou de outra ideia e essa ideia tende a influenciar ou convencer outras pessoas? Pode ser que não haja a intencionalidade de convencer ou influenciar, mas houve uma manifestação de um posicionamento que, querendo ou não, se aproxima ou coaduna com um outro posicionamento político ideológico qualquer.

Aprendemos que todo ato nosso é Político. A roupa que vestimos, a música que ouvimos, a literatura que apreciamos, ou não, é um ato Político, pois todas essas ações estão impregnadas de uma forma ideológica e conceitual de ver o mundo e agir a partir dessa ótica, isso é um ato Político. Agir contra ou a favor de algo, ou não agir, são posicionamentos políticos que determinam uma concepção de reação aos fatos e fenômenos sociais. Há quem discorde e é legítimo, mas a Política é instrumento de mudança e organização social, a Política pode ser considerada, segundo Aristóteles, como “…a mais alta dentre todas as associações, a que abarca todas as outras, tem em vista a maior vantagem possível, o bem mais alto entre todos. ”, a partir daí, podemos dizer que seja ela a forma mais civilizada de uma organização social.

Fora da Política, o que temos para dar direcionamento e parâmetros à sociedade que ainda pena com a falta de educação, saúde, cultura e acesso aos direitos básicos? Há quem diga que seja ela a causadora dessas mazelas. Será? Ou será a má gestão da Política e o desprezo por ela que fazem com que todas essas mazelas sejam preponderantes na nossa sociedade?

Um povo com alto nível de consciência Política e do seu papel em sociedade sabe a importância de uma nação forte, pois dela fazem parte e agem como principais e maiores interessados e, a depender dos riscos e danos, como maiores prejudicados, não permitem a sua má condução ou destruição. Ao chegar a esse patamar de politização, o povo incorpora ao seu cotidiano as discussões e ações políticas conduzidas pelos seus governantes e agentes públicos das variadas instâncias, ações estas que lhes afetam direta e indiretamente.

O patamar civilizatório que a humanidade alcançou para resolver seus problemas de ordem estrutural e organizacional na sociedade possuidora de indivíduos, grupos sociais variados e específicos nas suas complexidades, sejam elas individuais e/ou coletivas, foi por meio da Política. Considerando a Política responsável pela organização sistêmica, deve ser essa um fator preponderante em uma sociedade por meio da sua consciência coletiva acerca dela, de maneira que a mesma tenha sua fluidez e inserção nos campos ideológicos e científicos permeada pela interlocução entre eles e o universo externo a esses dois espaços. Segundo David Runciman, Filósofo político e analista da Política contemporânea: “O que conta, na política, é o momento em que as palavras se convertem na ação. ”

A ideia apolítica que permeia a nossa sociedade é nociva à emancipação Política da mesma. Quando um cidadão ou cidadã se coloca à disposição do sufrágio e nega a Política, afirmando categoricamente que não é Político, ele está ludibriando a sociedade, tentando manipular pessoas para atingir seu objetivo que é o logro eleitoral, quando na realidade ele deveria assumir a sua postura Política e explicar à sociedade o que é a Política e sua importância na vida das pessoas e não as despolitizar; ao despolitizar, ele tira do povo a sua soberania e  é importante refletir a quem interessa tirar a soberania do povo e para quê.

Pode ser que este indivíduo não tenha uma formação orgânica na Política, não tenha uma tradição ou não seja um Político profissional, pode ser que seja um outsider, como é comum nos tempos de hoje, mas ele não pode negar que seja um Político ou uma Política, pois ela ou ele estão fazendo parte de um universo ou grupo que não é outra coisa senão Político. Então, como negar ser Político ou Política, quando se está inserido/a e fazendo parte da estrutura Política convencional?

A compreensão de que Política, futebol e religião causam conflitos ou sejam motivo de separar as pessoas é bastante nociva à sociedade, pois atravanca o seu desenvolvimento e emancipação sociopolítica, fazendo com que a sociedade não reflita sobre e não avance em questões estruturais que ainda causam graves danos às pessoas e aos grupos sociais. A sociedade é formada também por conflitos, eles fazem parte da sociedade, não existe sociedade sem conflitos.

Portanto, é preciso acabar com essa cultura de demonização da Política, e de dizer que futebol, religião e Política não se discutem. Se discutem sim, são questões sociais que perpassam pela formação cultural de um povo e pautam a sociedade, então, é discutível. É preciso despersonalizar a Política para que ela ocupe o seu lugar de nobreza na formação do indivíduo e da sociedade como um todo, para que as pessoas não demonizem ou a desmereçam a partir de erros individuais dos maus políticos.

 

Queila Patricia é presidenta da União de Negros e Negras pela Igualdade (Unegro) de Juazeiro-BA, licenciada em Letras e cientista social em formação.

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