Reinaldo Azevedo: Hoje, os pobres dariam a vitória a Haddad

O presidente Jair Bolsonaro fez o óbvio diante da avalanche de dados que registra a deterioração de sua popularidade, especialmente entre os mais pobres: desqualificou a pesquisa. E nem poderia ser diferente: uma soma de dificuldades objetivas na economia com insensibilidade social pura e simples faz com que esse governo não tenha uma miserável proposta que contemple os setores mais vulneráveis da sociedade. Nesse caso, estreitam-se num abraço insano o ódio do presidente às esquerdas — e ele associa programas sociais a esquerdistas — e certa idiotia funcional da ala liberal do governo para quem a pobreza é algo que se resolve com… o mercado.

Sem dúvida, ninguém ainda inventou outro produtor mais eficaz de riqueza. Sozinho, no entanto, ele não corrige distorções acumuladas ao longo de décadas, quem sabem de séculos. Ainda que estivesse em plena forma produtivista. E não está. O crescimento da economia ainda é pífio. Como o sujeito é pobre sem ser, em regra, masoquista, então ele migra para o outro lado ou permanece do outro lado. E uma solução puramente populista como pagar 13º para o Bolsa Família não responde à demanda por uma ação ao menos amenizadora da pobreza. Até porque o tal 13º vai sair da não correção do benefício.

Se a eleição fosse hoje, os números do Datafolha indicam que Fernando Haddad, do PT, venceria a eleição por 42% a 36% em números absolutos. Dizem que não votariam em ninguém 18% dos eleitores. Afirmam não saber 4%. Não dá para fazer a comparação exata com os números conhecidos do segundo turno. Brancos e nulos somaram 9,57% do total de votantes no ano passado. A abstenção foi de 21,3%.

Também Haddad sofreria uma perda de eleitores que foram seus se a disputa fosse hoje: 88% repetiriam seu voto; 4% migrariam para Bolsonaro, e 6% optariam por não votar em ninguém. A perda do atual presidente seria muito maior: 74% repetiriam o voto, mas 10% migrariam para o adversário, e 13% optariam por não optar.

O petista venceria entre os desempregados — 52% a 26% — e perderia entre os empresários: 61% a 26%, lideraria com folga entre estudantes (50% a 32%), pardos (43% a 36%) e pretos (53% a 26%) e perderia entre os brancos: 36% a 43%. Na distribuição dos votos por região, Bolsonaro ainda leva vantagem em quatro das cinco regiões, mas a derrota no Nordeste seria acachapante: 57% a 23%. A maior vantagem do atual mandatário ainda seria no Sul: 43% a 32%.

Bolsonaro ainda levaria vantagem em todas as faixas de renda, exceto aquela em que se situa parte considerável da mão de obra brasileira, empregada ou desempregada: a que ganha até dois mínimos. Aí, mais uma vez, a derrota seria gigantesca: 53% a 27%. Quando se faz o corte de dados por escolaridade, os pobres aparecem, mais uma vez, liderando o “não” ao atual presidente: o petista bateria o peesselista por 45% a 33% e 42% a 37% entre os que tem, respectivamente, ensino fundamental e médio. Haveria um empate técnico entre as pessoas com ensino universitário: 40% a 38% para o atual presidente. Depois dos empresários, a maior vantagem do presidente estaria entre os que recebem de cinco a 10 mínimos: 53% contra 27%.

Se Bolsonaro tem dificuldades efetivas para ligar o seu governo aos mais pobres, há um outro aspecto a ser relevado que indica a perda de entusiasmo mesmo entre os seus eleitores: o fato de ser boquirroto, de falar o que dá na telha. O Datafolha já apontou, por exemplo, que nada menos de 32% acham que ele nunca age de modo compatível com o cargo; para 23%, quase nunca. Somados, esses números chegam a 55%.

Lembram-se aquela ironia grosseira do presidente, segundo quem basta fazer cocô dia sim, dia não para colaborar com o meio ambiente? A fala é rejeitada por 88%; só 10% concordam — menos do que o bolsonarismo mais radical. E aquela conversa de que pessoas mais cultas têm menos filhos, sendo ele próprio, com cinco, a exceção à regra? 63% reprovaram a fala, contra 33% que concordaram com ela. Nada menos de 69% discordaram da referência aos governadores do Nordeste como “paraíbas”, contra 22% de concordância. E chegam a 70% os que se opõem à afirmação de que indicará um filho para a embaixada porque, se puder, vai lhe dar um filé mignon. Só 27% viram nisso um acerto.

Bolsonaro dificilmente vai mudar a sua estratégia. Há nisso, reitero, método, ainda que pareça — e seja — meio insano. Está firmemente convencido de que sua melhor saída é manter unido o seu exército de convictos absolutos, mesmo falando as coisas mais estapafúrdias, para tentar, mais uma vez, um confronto de tudo ou nada com a esquerda. O seu objetivo, no momento, é eliminar potenciais adversários de centro. E depois vender o medo de uma suposta ameaça comunista mesmo a uma fatia dos pobres.

Reinaldo Azevedo é jornalista, colunista político e escritor. 

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