Sakamoto: Bolsonaro diz que é horrível ser patrão no Brasil. E ser trabalhador?

“É horrível ser patrão no Brasil”, afirmou Jair Bolsonaro em reunião com a bancada do MDB nesta terça (4), de acordo com registro do jornal O Globo. Ele reclamava da legislação, defendendo o aprofundamento da Reforma Trabalhista, que mudou mais de 120 itens da CLT no ano passado. Depois, em coletiva à imprensa, afirmou que “continua sendo muito difícil ser patrão no Brasil”.

Sim, ele poderia ter dito “é horrível ser trabalhador no Brasil” ou “continua sendo muito difícil ser trabalhador no Brasil” por conta dos baixos salários (em média, os brasileiros ganham 2,3 salários mínimos), do alto índice de informalidade (segundo os últimos dados do IBGE, são 11,6 milhões o número de empregados sem carteira assinada), dos 12,4 milhões de desocupados, dos 27,2 milhões de subutilizados ou dos 4,7 milhões de desalentados – que nem procuram mais emprego porque sabem que não vão conseguir. Mas preferiu falar dos patrões quando tratou da legislação que rege a compra e venda da força de trabalho.

Se ele ainda tivesse dito que é horrível ser pequeno empresário urbano no Brasil ou pequeno produtor rural, eu poderia concordar. Essas categorias estão tão estrepadas quanto os trabalhadores mais pobres e a maior parte da classe média baixa. Mas ele não fez qualquer diferenciação. Vale lembrar que sua audiência era formada de congressistas – grupo social que conta com grandes empresários – que, aliás, votaram por perdoar parte de suas próprias dívidas com a União ao aprovar um novo refinanciamento com condições de mãe.

Isso me lembrou de outra declaração do presidente eleito, ainda candidato, no dia 17 de outubro, em entrevista ao SBT: “Eu acho que, no Brasil, você não pode falar em mais ricos, está todo mundo sufocado. Se você aumentar a carga tributária para os mais ricos, como a França fez no governo anterior, o capital foi para a Rússia. O capital vai fugir daqui, a carga tributária é enorme. Quase tudo é progressivo no Brasil”.

Sufocados? Quem sufocou na crise foram – novamente – os mais pobres, a classe média, os pequenos empresários. Os mais ricos e os grandes patrões conseguiram Michel Temer para defendê-los sem constrangimento e, ao que tudo indica, não vão ficar desamparados a partir de 2019.

A íntegra do texto está disponível no blog:

https://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2018/12/04/bolsonaro-diz-que-e-horrivel-ser-patrao-no-brasil-e-ser-trabalhador/

 

Leonardo Sakamoto é jornalista 

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