Sakamoto: Bolsonaro insulta seu povo com fala sobre imigrantes nos EUA

Teria sido bem menos constrangedor flagrar o presidente brasileiro usar um chapéu com as orelhas do Mickey em uma reunião de cúpula entre Brasil e Estados Unidos do que vê-lo defender a ampliação do muro que separa os EUA do México e da América Latina, em entrevista à Fox News, nesta terça (19). E ainda por cima insultar a parcela dos trabalhadores migrantes que tentam entrar de forma irregular no país, como centenas de brasileiros.

“Nós concordamos com a decisão de Trump sobre o muro”, afirmou o presidente. Ao dizer “nós”, Bolsonaro sequestra a opinião de milhões de brasileiros que não têm culpa alguma pelas medidas discriminatórias defendidas por seu supremo mandatário. Não é a primeira vez que a família faz isso, contudo.

Durante um evento em um resort pertencente a Donald Trump, na Flórida, em fevereiro, o deputado federal Eduardo Bolsonaro subiu ao palco e contou que apoiava o projeto do presidente norte-americano de ampliar o muro. “Como trabalhei na fronteira entre o Brasil e a Bolívia, nós sabemos como as coisas funcionam. Então, construam o muro. Nós, brasileiros, estamos apoiando vocês.”

Bolsonaro não ficou só nisso, infelizmente. Também disse que “a grande maioria dos imigrantes em potencial não tem boas intenções nem quer o melhor ou fazer bem ao povo americano”. Considerando que são muitos os brasileiros entre os que migram para os EUA e, mais do isso, que o Brasil se constituiu por migrações de pessoas de várias partes do mundo, o presidente da República conseguiu insultar sua própria gente em uma TV estrangeira.

Dizer que “a grande maioria dos imigrantes em potencial não tem boas intenções” é praticamente um reforço nas declarações de seu filho, Eduardo, dadas neste domingo. “O brasileiro que vem pra cá [Estados Unidos] de maneira regular é bem-vindo. Brasileiro ilegalmente fora do país é problema do Brasil, é vergonha nossa”, afirmou.

Vergonha não é o fato de brasileiros entrarem irregularmente em outro país, como já disse aqui. Mas o Brasil ter sido incompetente para garantir boa qualidade de vida a eles e a suas famílias de forma que não precisassem procurá-la em outro lugar. Por outro lado, “a grande maioria dos imigrantes” tem sim boas intenções e faz o bem ao povo que os acolhe. São eles que exercem o trabalho sujo que poucos querem fazer, limpam latrinas, costuram roupas, cozinham e servem, recolhem o lixo, limpam as ruas, constroem casas.

O que Bolsonaro ganha ao dar declarações como essa, que faz coro com o pior do nacionalismo? Mostrar-se tão útil que o presidente norte-americano talvez o considere um parceiro prioritário? Acender a libido da ala radical de seus seguidores em redes sociais? Ganhar um afago ou um biscoito da extrema direita norte-americana? O problema é que ser subserviente nunca fez com que alguém ganhasse respeito. Pelo contrário.

(Leia a íntegra do texto blog)

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