Tarso Genro: O antipetismo se transformou em antidemocracia

As violências de rua que se abriram a partir de 2013, que já denunciávamos como uma emergência fascista – tivesse a coloração aparente que tivesse – em Porto Alegre se expressaram claramente em vários momentos: nos ataques ao Museu Julio de Castilhos, ao pequeno comércio ao longo da Borges de Medeiros e da Avenida João Pessoa; apareceram no apedrejamento de policiais que simplesmente estavam fazendo guarda em locais públicos; nas ações apoiadas por helicóptero locado, que sobrevoava os locais das manifestações incensadas pela maioria da mídia tradicional.

O “slogan” era “o Brasil acordou”, que jogava todos os políticos de todos os partidos no mesmo saco de indecência e amoralidade, gerando o resultado que aí está: a ira fascista à solta, a violência substituindo o argumento, seus jornalistas mais decentes acuados pela mesma raiva que eles “glamourizaram” naquelas  jornadas manipuladas, nas quais até “esquerdistas” inexperientes ou mal intencionados apostaram, para “destruir o PT”. Não o destruíram, mas estão destruindo a democracia.

Haddad está nitidamente se movimentando como quem tem a compreensão da gravidade do momento. E se move para flexibilizar o seu Programa de Governo e conversar com todos os setores da sociedade, que querem preservar a democracia representativa e recuperar a dimensão prática -no cotidiano das pessoas- do Estado de Direito. Quais os apelos concretos que esta nova frente deve responder, na conjuntura atual? O direito de transitar com mais segurança pelas ruas, que passa pela aplicação de um Programa Nacional de Segurança Pública já configurado no Pronasci, que institua uma Polícia preparada, forte e integrada nas comunidades, atuando contra o crime  organizado dentro da lei, sempre com superioridade de forças e equipamentos, em relação às quadrilhas que controlam aqueles espaços públicos populares, com apoio da própria comunidade.

Outro apelo: responder às pressões do mercado financeiro autêntico e aos seus agentes especulativos, que sabemos que é impossível retomar o crescimento isolando-se do mercado financeiro global ou rompendo com ele, sem financiamento externo e sem negociação transparente com seus representantes. Aliás indicando que Portugal – onde sua esquerda unificada em defesa do Estado Social dentro da União Européia fez isso de forma magistral – é exemplo para nós. Ali, os democratas de todas as cepas compreenderam que a pior das doenças do capitalismo  é o ódio fascista, semeado para manter o controle das mentes dos próprios oprimidos e que, se ele não for derrotado dentro da democracia, poderá permanecer por gerações.

Na Grécia, as propostas de Varoufakis – inconsistentes politicamente e dotadas de uma lógica puramente acadêmica – quase enterraram novamente o que restava da democracia grega, por impraticáveis dentro da nova ordem européia. A  unificação do mundo, forçada pelo capital financeiro universal, contém dois movimentos contraditórios: de uma parte, reforça o autoritarismo estatal através do seus bancos centrais, para manter sua acumulação dentro de qualquer regime político; de outro, viabiliza ou reforça as hordas fascistas, contra a democracia política inscrita no Estado de Direito, quando este hesita em compor com ele uma relação previsível e estável.

Finalmente, esta nova frente deve chamar – com o apelo à esperança e ao bom senso dos brasileiros – pela reconciliação dentro da democracia. A grande massa de eleitores de Bolsonaro não é formada por fascistas, como os seus grupos de “vanguarda”, que atacam e massacram pessoas em vários pontos do Brasil. Seus eleitores foram, na verdade, preparados pela mídia tradicional e pelas redes manipuladas em lugares ora indecifráveis  – exaustos da corrupção endêmica –  para  o desencanto com a política tradicional e para a conclusão que era só “retirar o PT do Governo”, para acabar com a corrupção e com a insegurança. Era o que  dizia o impoluto Aécio, ele mesmo ora visto como corrupto e mentiroso.

Isaac Singer, escritor judeu universal e um grande de todos os tempos, perguntado numa entrevista provocadora porque o herói do romance ocidental era o super-homem de Prometeu e os heróis da ficção ídiche eram “homenzinhos” – certamente se referindo aos que não resistiram no Gueto de Varsóvia, como fez a maioria heroica do Gueto – respondeu: “Minhas personagens embora não sejam grandes homens no sentido de desempenhar um grande papel no mundo, ainda assim não são pequenos, porque a sua maneira são homens de caráter, homens de cabeça, homens de grandes sofrimentos.”

A maravilhosa resposta deste humanista exemplar se reporta à universalidade dos homens e mulheres que vivem este triste momento da nossa história. Nele, liberais históricos apoiam um candidato que incita matar e que abjura os seres humanos pela sua diferença; nele, antigos democratas se mostram neutros perante as infâmias raciais e culturais de quem promete armas que ferem matam em nome da “paz”; nele, partidos que emergiram na luta política contra a ditadura ficam neutros perante a noite fascista, que vem sendo forjada na cultura do ódio. É o momento da nossa História em que estamos, na verdade, menos nas mãos da política como ela se forjou na modernidade e mais nas mãos dos que não são “homenzinhos”, mas “homens de caráter, homens de cabeça, homens de grandes sofrimentos.” Que eles vençam neste hoje obscuro canto do mundo e afastem as pérfidas asas da morte como desejo, que fazem do outro qualquer um inimigo. Haddad é o seu porta voz!

 

Tarso Genro, 65, é ex-governador do Rio Grande do Sul. Foi ministro da Justiça, da Educação (ambos no governo Lula) e prefeito de Porto Alegre pelo PT (1993-1996 e 2001-2002)

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