Vigília pela liberdade de Lula fez de 2018 o ano da resistência

Na noite do dia 7 de abril de 2018, centenas de militantes esperavam a chegada de Lula em Curitiba, durante um ato de solidariedade frente a prisão política do ex-presidente, após um processo sem crime e sem provas, quando foram atacados com bombas de efeito moral. Nos três dias anteriores, foi realizada a resistência histórica que adiou a prisão de Lula, cercado por milhares de apoiadores no Sindicato dos Metalúrgicos em São Bernardo do Campo.

Foi a partir dessa sequência de episódios, já marcados na história do Brasil, que teve início a Vigília Lula Livre, movimento de resistência que defende a libertação do ex-presidente. Ao longo de mais de oito meses, centenas de militantes se revesaram nos acampamentos formados nas proximidades da Superintendência da Polícia Federal, em Curitiba.

Com apoio e solidariedade de todo o Brasil, a vigília se estruturou como um espaço de manifestação e debate, com ambiente para refeições, além de receber importantes nomes da política, da intelectualidade e da cultura, vindos de diversas partes do Brasil e de todo o mundo.

Um dos coordenadores da Vigília, Roberto Baggio celebra a união e a força política que o grupo representa. “O forte dessa Vigília é a solidariedade, o amor que o povo tem pelo presidente Lula. Todos os dias expressamos aqui esse amor. Essa Vigília enraizou-se. É uma árvore que criou raízes e está gerando frutos”.

Mesmo com a chegada das festas de final de ano, a Vigília não se esvazia. A militância organizada se preparou para passar o Natal com Lula, demonstrando que o carinho pelo ex-presidente é enorme no coração dos Brasileiros. No ano novo a atividade se repete, levando também um alento para Lula, que se vê privado do convívio com sua família e seus amigos, além do povo brasileiro, que sempre foi sua fonte de inspiração para fazer política.

“Estamos há 262 dias nessa Vigília e hoje é um dia especial. Isso aqui está muito lindo, com as pessoas participando, organizando, preparando a ceia, ajudando com doações. É um momento especial da Vigília”, destaca o dirigente do PT Florisvaldo Sousa que ajudou nos preparativos da Ceia de Natal, nesta segunda-feira (24).

O militante fez questão ainda de lembrar do dia em que o ex-presidente chegou em Curitiba. “Estávamos aguardando a chegada do Lula, numa prisão injusta, e houve uma ação criminosa da Polícia Federal, jogando bombas em pessoas que se manifestavam pacificamente”.

Relembre os momentos mais importantes da Vigília Lula Livre em 2018

Em maio, Lula recebeu o ator norte-americano e ativista de direitos humanos Danny Glover. “Meu irmão e companheiro Lula tem que ser libertado para continuar com todas as conquistas que ele alcançou para o povo. Ele é um símbolo de trabalho e amor que repercutiu não só no Brasil como no mundo”, disse Glover.

O teólogo Leonardo Boff também fez uma visita religiosa ao ex-presidente. “Lula me disse que, se não morreu aos 5 anos de fome, desde lá sua vida é resistir. Me disse que sua vocação na vida é lutar. O que lhe move é a indignação”, declarou Boff após o encontro.

Após visita religiosa a Lula em junho, a Monja Coen relatou a “alegria de poder encontrar o presidente e falar com ele, e a tristeza por ele estar nessa circunstância”. “Lula é digno. Incomoda porque é honesto, correto e pensa em todos”, declarou.

Em agosto Os cantores e compositores Martinho da Vila e Chico Buarque visitaram Lula em agosto e transmitiram um recado de Lula, que lutava pelo direito de ser candidato. “Não troco minha dignidade pela minha liberdade”, afirmou Lula aos amigos.

No mesmo mês, Lula recebeu o prêmio Nobel da Paz, Adolfo Pérez Esquivel. Atualmente, o argentino lidera umacampanha para consagrar a Lula o Nobel da Paz em reconhecimento ao seu legado no combate à fome e à miséria no Brasil. “Não conheço outro líder que tirou 36 milhões de pessoas da extrema pobreza. Isso é um feito que precisa ser reconhecido, porque tirar milhões de pessoas da extrema pobreza, é construir a paz”.

O ex-presidente da Colômbia e ex-secretário-geral da Unasul (União das Nações Sul-Americanas), Ernesto Samper, também visitou Lula em agosto. “Não há um único dos princípios universais do devido processo legal que não tenha sido violado no caso do ex-presidente Lula”, disse Samper, após ter lido a íntegra da sentença que condenou Lula.

Um dos pensadores mais importantes da atualidades, o linguista e filósofo norte-americano Noam Chomsky classificou Lula como “uma das figuras mais significativas do século 21”, após visitá-lo em setembro . “É encorajador encontrá-lo e passar um tempo com ele, que por direito deveria ser o presidente do Brasil”.

O ex-primeiro-ministro italiano Massimo D’Alema e o ex-governador do Distrito Federal do México, Cuauhtémoc Cárdenas também estiveram com Lula durante uma hora. Ao deixar a prisão, D’Alema classificou a prisão de Lula como “uma monstruosidade”. “Os juristas europeus constataram que a condenação veio em um processo em que não foram garantidos os direitos dele e não existem provas que o incriminam”, afirmou.

Para o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, o encontro com Lula foi emocionante. “O que vi foi a grandeza de um homem que sabe inspirar não só o País, mas todos aqueles que o visitam. Não se trata do Lula pessoa, mas do Lula ideia. A ideia de um país com esperança em uma sociedade melhor e inclusiva, mais justa e fraterna”.

Em setembro, a presidenta eleita Dilma Rousseff esteve com Lula em Curitiba, e falou sobre a emoção de estar ao lado do presidente. Em conversa com os jornalistas após a visita, afirmou que a visita “foi muito boa”. Dilma contou que, durante o duro processo de impeachment que enfrentou, “em momento algum eu chorei. Nunca eu chorei”. E explicou por que: “eu não choro na frente de inimigo, não choro”.

Dilma lembrou que tampouco chorou quando foi presa e torturada pela ditadura militar (1964-1985) mas que “quando se trata do presidente Lula, e da absurda injustiça” cometida contra Lula, a ex-presidenta confidenciou que “com ele eu choro. Eu lembro dele e choro”. Para Dilma, “não há injustiça maior do que você condenar uma pessoa inocente.

Na avaliação da petista, a prisão de Lula representou a terceira etapa do golpe. “A primeira é o meu impeachment, a segunda é aprovar no Congresso uma pauta que não foi legitimada pelas eleições, e a terceira etapa é prender o Lula e impedir que ele seja candidato”.

Martin Schulz, líder da social-democracia alemã e antigo presidente do Parlamento Europeu, também visitou Lula na prisão e defendeu o direito de Lula a receber um julgamento justo.

Em novembro, o ex-presidente Lula recebeu o fundador do Podemos na Espanha, Juan Carlos Monedero. Em entrevista após a visita, Monedero comparou o cárcere de Lula ao de Mandela. “A História lembrará de Lula, mas não de seus algozes”, disse.

Disputas de despachos e liminares: manobras para impedir a liberdade de Lula

Em julho, Lula quase foi libertado, após o desembargador Rogério Favreto, acatar habeas corpus da defesa em despacho publicado às 9h do dia 8, determinando o cumprimento em regime de urgência. Contudo uma série de ilegalidades e manobras jurídicas se seguiram sob os olhos de todo país.

Desrespeitando o devido processo legal e a hierarquia do Poder Judiciário, Moro, que está de férias entre 2 e 21 de julho, publicou despacho afirmando que não cumpriria a decisão. Por volta das 12h, o desembargador Favreto emitiu outro despacho determinando o cumprimento imediato da decisão de soltura. Mais tarde, por volta das 14h, foi a vez do desembargador João Pedro Gebran, também do TRF-4, atuar de maneira política, durante seu dia de folga. Ele emitiu mais um despacho, determinando que a Polícia Federal de abstivesse de cumprir a decisão de Favreto.

Após mais alguns despachos com decisões contraditórias, ao final do dia, o presidente do TRF-4, Thompson Flores determinou que a decisão final seria a de Gebran. Assim, os despachos de Favreto em relação a Lula foram desconsiderados e o ex-presidente mantido como preso político.

Em dezembro um episódio similar ocorreu no Supremo Tribunal Federal. Após decisão do Ministro Marco Aurélio Mello no dia 19, a defesa de Lula enviou petição pedindo à justiça para que soltasse o ex-presidente. A liminar de Mello determinava a soltura de todos os presos que estavam detidos em razão de condenações após a segunda instância da Justiça.

Em mais um episódio de arbítrio, a juíza de execução penal Carolina Lebbos desrespeitou a decisão e afirmou que aguardaria a publicação no Diário Oficial. Isso deu espaço para a Procuradoria Geral da República elaborar um novo pedido e o ministro Dias Toffoli derrubar a primeira liminar ainda na noite do dia 19.

O vai e vem jurídico mobilizou intensamente os militantes da Vigília, aponta Baggio. “Os momentos de possibilidade de libertação de Lula, em julho e agora em dezembro. Havia uma expectativa real de que ele pudesse sair, pela porta da frente, passasse aqui na Vigília, desse um depoimento e fosse embora. Isso mexeu muito com todo mundo que estava aqui”.

Ele ainda fez questão de renovar o compromisso com Lula: “Só vamos sair daqui com a libertação de Lula”.

 

Fonte: Agência PT de notícias

Textos Relacionados
Deixe seu recado