Walter Takemoto: O Congresso é a casa do povo?

379 deputados votaram hoje (quarta-feira, dia 10 de julho), em primeiro turno, pela aprovação do projeto que na prática acaba com o direito de milhões do acesso a aposentadoria, benefícios da seguridade social, e retira direitos de outros milhões, como dos profissionais do magistério, trabalhadores do campo, entre outros.

Estão comemorando os banqueiros, os donos do poder econômico, os meios de comunicação, e os 379 deputados que receberam milhões para vender seus votos.

Repete-se, agora, a mesma narrativa que levou a destruição dos direitos trabalhistas e da terceirização, e temos atualmente no Brasil 13 milhões de desempregados e 25 milhões de precarizados.

Daqui alguns anos veremos a miséria se espalhando ainda mais, uma legião de idosos sem aposentadoria e jovens sem perspectiva de um futuro digno.

Foram 131 votos contra esse nefasto projeto. E muitos comemoram os votos desses valorosos parlamentares. Eu também os saúdo.

Mas não mudou a dura realidade com a qual nos deparamos.

A questão é uma só: o Congresso não é e jamais será a chamada “casa do povo”, em uma sociedade profundamente desigual, na qual o Estado e suas instituições são comandadas e estão a serviço daqueles que controlam o poder econômico.

Temos que ter claro que nossa sociedade é uma sociedade dividida. Temos a educação dos ricos e dos pobres, a saúde dos ricos e dos pobres, os bairros onde residem os ricos e a periferia dos pobres.

Não é, e jamais será, diferente quando falamos no acesso ao poder executivo, legislativo e ao judiciário.

Se os ricos e poderosos nos sonegam os mínimos direitos, porque é que permitiriam que pudéssemos controlar o país que consideram que lhes pertence?

Alguns dirão: mas o Lula se elegeu presidente e a Dilma o sucedeu!

E qual foi a continuidade da história? Todos nós sabemos.

Voltando a votação do fim da previdência social.

Por mais combativos que sejam os 131 parlamentares que votaram contra o projeto, faltou o mais importante, assim como faltou durante os governos Lula e Dilma.

Faltou a nossa presença, dos trabalhadores e do povo pobre, ocupando as ruas e lutando pelos direitos que são nossos.

Alguns dirão que não temos organização e mobilização para parar o país, ocupar cotidianamente as ruas e praças, realizar uma greve geral por tempo indeterminado.

É verdade?

A questão é que organização e mobilização da população não nasce de geração espontânea, as pessoas não vão lutar se não tiverem consciência de seus direitos e do que estão perdendo.

É a nossa tarefa, dos militantes, ir às vilas, fábricas, escolas, locais de trabalho, dialogar com as pessoas, contribuir com a organização, apoiar suas lutas.

Infelizmente, nos últimos anos, a crença de que estar na presidência, de governar o país, eleger prefeitos, governadores e parlamentares, bastaria para mudarmos o país, passou a ser o mantra de muitos dirigentes de partidos e organizações populares. Que não era mais preciso o árduo “trabalho de base”, pois teríamos os votos da “nossa base eleitoral”, e que isso já era mais do que suficiente.

A história, e o ódio de classe que os donos do poder econômico possuem aos que consideram inimigos, nos mostraram que estávamos errados. Se muitos de nós esqueceram que existe uma divisão de classes no país, os donos do poder econômico jamais se esqueceram.

É preciso participar de eleições, disputar os espaços institucionais? É preciso sim.

Mas o fundamental é organizar, formar e mobilizar aqueles que dão sentido e legitimam  a nossa luta, que são os trabalhadores, os explorados e oprimidos da sociedade. Sem que eles sejam os protagonistas da luta política, não faremos transformação alguma que acabe com injustiças sociais e a desigualdade. E nem teremos um país radicalmente democrático e livre.

Realizamos uma grande greve dia 14, e depois disso?

O que temos que aprender nesse processo, extremamente doloroso, é que o poder real ou é construído com os trabalhadores e o povo organizados, ou então é ilusão.

Começamos a perder a batalha no dia em que passamos a olhar para o Seu José como um voto.

Agora, precisamos olhar para o Seu José como um militante, essencial para as lutas que precisamos travar.

Ainda é tempo, pois ele não para, mas nunca envelhece.

Perdemos mais uma batalha, mas a história não chegou ao fim, pois a luta de classes existe, e somos nós os milhões e eles não sabem voar.

 

Walter Takemoto é educador e liderança estadual da Frente Brasil Popular (FBP)

Textos Relacionados
Deixe seu recado