Yascha Mounk: Democracia sob supervisão militar

Sempre esteve claro para os observadores externos que o Brasil teria que pagar uma conta alta por ter eleito um líder tão perigoso e irresponsável quanto Jair Bolsonaro.

Mas os acontecimentos dos últimos meses asseguram que essa conta será ainda mais trágica do que se evidenciava.

Centenas de milhares de brasileiros provavelmente vão morrer desnecessariamente devido à reação caótica e incompetente do governo à Covid-19.

E, mesmo que seja possível evitar os piores ataques à democracia, a Presidência de Bolsonaro deixará a democracia brasileira gravemente enfraquecida.

Pelo fato de afirmarem que apenas eles representam o povo, populistas são incapazes de aceitar a dissensão legítima.

Assim, começam pouco a pouco a atacar tanto as instituições políticas independentes quanto tribunais, especialistas independentes e autoridades de saúde pública.

Depois de décadas em que as elites políticas locais haviam se colocado em descrédito, seus avisos sobre os líderes novatos que ameaçavam tomar seus lugares soavam como súplicas especiais.

Particularmente nos países com corrupção arraigada e cujos políticos tradicionais eram sabidamente oportunistas, muitos cidadãos, compreensivelmente, acharam difícil se preocupar com coisas como o Estado de direito ou a separação dos poderes.

Esse ceticismo pareceu justificado nos primeiros anos. Descobrimos que o navio do Estado é um transatlântico bastante robusto.

Mesmo quando ele se desvia da rota, demora a se chocar com um iceberg. Até alguns meses atrás, a maioria dos brasileiros podia alegar que os desastres previstos não os haviam atingido.

A crise extraordinária de saúde pública mudou essa situação. Enquanto algumas democracias conseguiram conter o vírus e agora podem retornar para alguma forma de normalidade, Bolsonaro passou meses negando o perigo evidente.

Não surpreende que o Brasil agora tenha a distinção de ser o país com o segundo maior número confirmado de casos e de mortes por Covid-19 no mundo.

Como se isso não bastasse, a ameaça à democracia brasileira também vem crescendo. Com Bolsonaro cada vez mais impopular, os militares vêm exercendo papel crescente em sua administração.

Como observador externo, é impossível prever qual dos cenários sombrios para o futuro político imediato do país discutidos em detalhes pelas maiores publicações brasileiras vai se revelar presciente, se é que algum vai, e quais mostrarão ser paranoia.

Mas o que chama a minha atenção é a mudança radical do teor geral da discussão.

Especialistas brasileiros alguns anos atrás sentiam confiança na força das instituições. Os militares haviam se afastado de vez da política, disseram-me.

Mesmo que Bolsonaro cortejasse generais e elogiasse o regime militar, não havia jeito de o Exército se deixar atrair de volta à política. Hoje vejo esses mesmos especialistas debaterem o que os generais fariam ou deixariam de fazer sob diversas circunstâncias.

Diz história apócrifa que as rãs não percebem quando a água começa a ferver. Mais ou menos da mesma maneira, a população brasileira não tomou consciência da extensão em que a possibilidade de ruptura democrática hoje molda a política brasileira.

Mas quando especulações sobre o que líderes militares aceitariam começam a moldar as decisões dos representantes eleitos, a essência da democracia já foi esvaziada.

Como me disse Filipe Campante, um colega da Universidade Johns Hopkins, “o Brasil já é uma democracia sob supervisão militar”.

 

Yascha Mounk é professor associado na Universidade Johns Hopkins e autor de “O Povo contra a Democracia”.

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