Militares mataram, torturaram e sequestraram crianças no Araguaia

 

Matéria do UOL

Pelas águas do rio Araguaia, parte da história do Brasil no século 20 foi contada. Naquela região distante dos centros urbanos, entre o final da década de 1960 e o início dos anos 1970, um movimento guerrilheiro criado pelo Partido Comunista do Brasil se formou com o objetivo de promover uma revolução e derrubar o regime militar.

O grupo armado recebeu o apoio de parte da população local, mas foi considerado uma ameaça à segurança nacional, se tornando alvo de uma ofensiva do governo a partir de 1972. A região entre Maranhão, Pará e Tocantins se transformou então em um palco de operações militares que deram um fim ao projeto dos guerrilheiros.

(…) Agora, um livro revela outra dimensão daquela operação: o sequestro de crianças. Resultado de um trabalho de anos do pesquisador Eduardo Reina, a obra desenterra revelações sobre um dos momentos de maior violência na história brasileira.

Em “Cativeiro sem Fim”, publicado pelo Instituto Vladimir Herzog e pela Alameda Editorial, Reina conta como bebês, crianças e adolescentes foram sequestrados de famílias de militantes de esquerda ou de pessoas contrárias ao regime. No Araguaia, essa prática teria envolvido 11 menores de idade, filhos de guerrilheiros ou camponeses simpáticos ao movimento contra a ditadura.

(…) No Brasil, pela primeira vez, Reina descobriu 19 casos de sequestro de bebês e crianças pela ditadura. Na Argentina, há registro de 500 casos desse crime contra a humanidade. (…) Com a ajuda de militares, servidores públicos, funcionários de instituições e de cartórios, as vítimas foram entregues a famílias de militares e a pessoas ligadas aos órgãos de repressão. (…)

“Não sei quantos anos eu tenho”, diz sequestrada (…) é o caso de Rosângela Serra Paraná, que diz ter sido sequestrada ainda bebê. “A filha do próprio general admitiu que minha certidão de nascimento era forjada”, conta. “Hoje, eu não sei a data de meu nascimento, não sei quantos anos eu tenho. Não comemoro mais nada. Busco incessantemente minha mãe, a minha origem, quem eu sou”, conta ela.

Segundo o relato do livro, Rosângela foi sequestrada na década de 1960 e entregue à família de Odyr de Piava Paraná, no Rio de Janeiro. Odyr era de uma família de militares. Seu pai era sargento do Exército e seu tio foi general e diretor-geral do Hospital de Base do Exército em Belém nos anos 1963 e 1964. (…) Odyr, segundo o livro, prestou serviços para o então presidente Ernesto Geisel (1974-1979), nas décadas de 1960 e 1970, e foi seu motorista no Rio.

(…) Para chegar aos 19 casos relatados, o autor fez mais de cem entrevistas, consultou 150 livros e 4.000 edições de jornais e percorreu mais de 20 mil quilômetros em território brasileiro em busca dos personagens sequestrados pelos militares ou seus familiares. (…) “Sempre me intrigou a ausência de resposta para uma pergunta: por que na Argentina, no Chile, no Uruguai, no Paraguai e na Bolívia, durante a ditadura, houve sequestro de filhos de militantes políticos pelas forças militares que ocupavam a Presidência da República e aqui no Brasil não?”

(…) Para o autor, o sequestro de crianças filhas de guerrilheiros não se limita aos 19 nomes encontrados por ele. “Há enorme resistência ainda para que as vítimas e seus familiares se abram. Todos têm muito medo de represálias”, disse.

 

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