Pranto para um camarada ou
pequenas palavras para Haroldo Lima.
Por Everaldo Augusto
Porque a boca fala o de que está cheio o coração.
(Mateus 12:34)
Destemido mosqueteiro socialista,
para quem a história tira o chapéu
e a vida estendeu o tapete vermelho,
por onde passastes com a armadura
das idéias e a lança em riste,
sempre à busca do horizonte.
Serias somente homem, não fosses
o semeador de esperanças, inveterado
viajante por dias, que pareciam séculos,
desde os tempos cruentos da escuridão,
tateando paredes de ferro em brasa
nas masmorras de todas as ditaduras,
construindo séculos que parecessem dias.
E sempre aparecias no outro lado do rio,
volátil e sagaz de dentro das brumas,
com o sorriso irredento e desafiador,
que nenhum exército conquista,
nenhuma noite escurece
ou prisão que emudeça
ou indiferença que resista.
E saltitante, tal qual inesperada notícia,
irreverente e pronto para a próxima batalha,
lá estava o guerrilheiro das idéias e dos gestos,
sempre a preparar o festival de praças cheias,
e arquitetar a gravidez das revoltas
e desenhar protestos que surgem do nada,
como surgem as tempestades rebeldes
e nascem, sabe-se onde, os ventos novidadeiros.
Estes ventos que carregam nas asas
envoltas em bandeiras vermelhas
as histórias de revoluções e utopias,
fadadas a serem vitoriosas sem datas
e tão intensas e duradouras e esperançosas
que foram a única bagagem do comandante peregrino,
que perambulou o mundo e navegou a vida,
sem esquecer a origem, sem perder o destino,
mas que ora parte por mares desconhecidos,
cujo porto são as histórias contadas em rodas
de feira e portas de igreja e conversas de presídios,
motins operários e trincheiras socialistas
ou confissão inaudita em frente a todo espelho
cuja sina é refletir eternamente a fome de justiça.
Destemido mosqueteiro socialista
serias homem se não fosses lenda.