Notícia

Julieta Palmeira: Resistir é esperançar

Via Portal Vermelho
8 março, 2021

E como estão as brasileiras nesse 8 de Março de 2021? Além de enfrentar uma crise de saúde com a possibilidade de adoecimento e perdendo pessoas queridas, resistem diante de outras adversidades que afetam a vida. É uma evidência o aumento da violência contra as mulheres e da subnotificação desta violência durante a pandemia que tem alcançado índices alarmantes no Brasil. A violência contra as mulheres é um problema de saúde pública que as afeta gravemente, quando não lhes subtrai a vida pelo feminicídio.

As medidas sanitárias necessárias diante da pandemia levam, nos lares onde a violência doméstica está presente, a uma maior convivência da mulher com o homem agressor. Mas além do aumento da violência de gênero, durante a Covid-19, tem se revelado mais ainda a situação de desigualdade em que vivem as brasileiras. Enfrentando a crise de saúde, as mulheres estão no front do combate à pandemia com toda a carga que isso representa.

Tem ameaçada a sua saúde física e mental ainda mais sobrecarregadas com os cuidados com as filhas, filhos e familiares doentes e realização de afazeres domésticos. Metade das mulheres brasileiras passaram a cuidar de uma pessoa durante a pandemia, de acordo com a pesquisa da organização Gênero e Número, em parceria com a SOF (2020).

Uma diferença na pandemia é que, antes, muitas mulheres contavam com outras mulheres para essas funções. A inserção das mulheres no mercado de trabalho no Brasil se dá com a manutenção das trabalhadoras ainda como principais responsáveis pelo cuidado com a família e os afazeres domésticos. E isso acontece mesmo quando estão lado a lado com os homens na condição de prover o sustento de sua família ou ainda que sejam as únicas provedoras, de acordo com o IBGE (2018).

Outro aspecto do impacto da pandemia é que, com interferência na atividade econômica das medidas sanitárias restritivas necessárias, as mulheres foram as primeiras a serem demitidas ou a terem reduzido o seu salário e a sua jornada de trabalho, estando em ocupações, muitas vezes, com vínculos trabalhistas precários. Em destaque, a realidade do desemprego das trabalhadoras domésticas, categoria majoritariamente constituída de mulheres negras.

O que dizer da situação das 976 trabalhadoras da Ford (*) e empresas parceiras, sem contar as de autopeças, em Camaçari/Bahia, e de suas famílias ? Muitas delas são chefas de família que estão sendo levadas ao desemprego em plena pandemia. Dessa vez, pelo rearranjo da articulação da lógica do capital internacional. Amplia-se também  o contingente de mulheres na população desalentada, que desiste de procurar emprego, muitas delas porque têm que cuidar das filhas e filhos nesse momento de crise de saúde.

Durante a pandemia, a participação das mulheres no mercado de trabalho no Brasil é a menor em 30 anos, aponta o IBGE. Para as brasileiras à frente de pequenos empreendimentos e na informalidade, os impactos da pandemia têm representado ameaça à segurança alimentar, em especial para as chefas de família que criam sozinhas suas filhas e filhos, arranjo familiar previsto na Constituição Federal, mas pouco contemplado quanto às políticas públicas.

O aprofundamento ou maior visibilidade das desigualdades enfrentadas pelas brasileiras  nos leva a refletir sobre a centralidade do trabalho (assalariado e doméstico) sobre a divisão sexual do trabalho na atualidade, as mudanças no mundo do trabalho, sobre as relações patriarcais e sobre a desobrigação com o cuidado e com a sustentabilidade da vida no capitalismo.

Quem se indigna com os índices alarmantes de violência contra as mulheres, com a ameaça à segurança alimentar e à subsistência da população, precisa buscar identificar em que base esses problemas estão amparados para melhor combatê-los. Helena Hirata (2014) analisa o entrelaçamento no Brasil da desigualdade de classe, racismo estrutural e patriarcado, realidade que faz com que as mulheres negras sejam as mais atingidas por essas desigualdades. É assim que, para citar um exemplo, o estudo da Superintendência de Estudos Sociais e Econômicos e Secretaria de Políticas para Mulheres da Bahia (2018) revela que  a maioria de 44% das chefas de família, que criam seus filhos e filhas sozinhas na Bahia, na faixa de 18 e 49 anos, são negras, e já antes da pandemia estavam na linha da pobreza. Essas mulheres têm, sem dúvida, intensificado a sua luta para sustentar sua família durante a pandemia. São opressões múltiplas e imbricadas como dizem Patricia Hill Collins (2014) e Angela Davis.

As brasileiras enfrentam todas essas adversidades, em uma conjuntura de subtração da democracia no país e de retrocessos nas políticas públicas que impactam na qualidade de vida delas e de sua família. Em meio a crise de saúde e de crise humanitária, ganha destaque a omissão do governo federal com a preservação da vida da população.

E nas ruas e nas redes, está mais uma vez na agenda das mulheres #vacinajá para todo mundo, auxílio emergencial nos moldes aprovados pelo Congresso Nacional em 2020, que destina o dobro do valor do auxílio emergencial para as chefas de família, além de iniciativas urgentes para garantir renda básica, geração de renda e emprego, e para o enfrentamento à violência contra as mulheres.Existem questões estruturais que oprimem as mulheres e que também exigem mobilização coletiva, a exemplo daquelas que tangenciam o Estado e o mercado de trabalho.

Fortes ventos de resistência e esperança vêm das mulheres, em especial das mulheres negras das comunidades periféricas.  Toda essa resistência fortalece o feminismo, o feminismo emancipacionista e popular.

[caption id="attachment_78891" align="alignnone" width="300"] Julieta Palmeira, secretária de Políticas para as Mulheres.
Foto: Camila Souza/GOVBA[/caption]

 

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