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O Genocídio da Juventude Negra no Brasil: Entre a Política de Segurança e a Política de Extermínio

21 novembro, 2025
Por Natan Ferreira, Presidente da União da Juventude Socialista na Bahia.

A violência contra a juventude negra no Brasil não é um fenômeno isolado, tampouco um evento esporádico: é parte estruturante de um projeto histórico que atravessa séculos. A cada novo relatório, a cada número atualizado, a constatação permanece: nascer negro no Brasil significa enfrentar um risco maior de morrer antes de alcançar plenamente a juventude. Essa realidade produz impactos profundos não apenas nas vítimas diretas, mas em toda a formação social, política e subjetiva da população negra, sobretudo a mais pobre.

Os dados mais recentes mostram que jovens negros, majoritariamente homens entre 15 e 29 anos, seguem sendo as principais vítimas de homicídio no país. Em muitas regiões, especialmente no Nordeste, essa taxa ultrapassa o dobro ou o triplo da média nacional. São
vidas interrompidas antes de se consolidarem como adultos, trabalhadores, pais, estudantes, sonhadores.

Essa violência não é aleatória: ela é produzida por estruturas de desigualdade, racismo institucional, ausência de políticas públicas e um sistema de segurança que historicamente criminaliza corpos negros. Assim, o homicídio deixa de ser apenas um indicador social e se
torna uma expressão de um processo contínuo que muitos intelectuais e movimentos sociais chamam de genocídio da juventude negra.

Quando milhares de jovens negros são assassinados ano após ano, perde-se muito mais que vidas individuais. Afeta-se a própria capacidade de uma comunidade de projetar futuro.

A violência faz com que meninos e meninas, que poderiam se tornar médicos, professores, artistas, lideranças e pesquisadores, tenham suas trajetórias encurtadas ou destruídas pela violência direta ou pelo ambiente marcado por ela mesma.

Cada jovem negro assassinado representa não apenas uma vida perdida, mas a interrupção de uma possibilidade de ascensão social que poderia transformar famílias
inteiras e comunidades inteiras.

A repetição contínua desses crimes produz uma anestesia social, como se a morte de jovens negros não fosse tão impactante quanto de outros grupos. Essa naturalização
aprofunda o racismo e dificulta respostas efetivas.

Para a população negra mais pobre, já excluída em múltiplas dimensões a violência tem um efeito ainda mais devastador. A juventude cresce sendo vista e tratada como ameaça.
Isso molda subjetividades, reduz autoestima e limita a relação com instituições como escola, universidade e trabalho.

Em várias periferias brasileiras, o futuro não é uma promessa, é uma incógnita. Planejar uma vida longa soa como privilégio, a violência desarticula redes locais e retira da
comunidade jovens que poderiam ter uma vida diferente, com oportunidades que os possibilitaria mudar suas realidades.

Para enfrentar o genocídio da juventude negra exige: Políticas públicas de segurança que não tratem jovens negros como alvo, mas como cidadãos, investimentos contínuo em educação, cultura, esporte e trabalho, especialmente em territórios periféricos, combate ao racismo institucional, especialmente nas polícias e no sistema de justiça, fortalecimento de
organizações e movimentos negros, que há décadas denunciam e constroem soluções; políticas de cuidado, saúde mental e acolhimento comunitário.

Mais do que reduzir números, trata-se de interromper um ciclo histórico que impede a população negra de viver plenamente, de envelhecer, de sonhar e de construir outro país.

A violência letal contra jovens negros é uma das mais graves violações de direitos humanos
no Brasil contemporâneo. Seus efeitos atravessam gerações, desorganizam famílias, enfraquecem comunidades e dificultam a própria afirmação da população negra como
sujeito político.

Falar disso não é apenas expor um problema; é disputar memória, dignidade e futuro. É afirmar que vidas negras importam e que o Brasil só será verdadeiramente justo quando a juventude negra puder viver sem medo, com oportunidades reais, com políticas que garantam vida plena.

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