Notícia

Pedro Diniz: Os limites do ensino remoto e o futuro da educação no Brasil

23 julho, 2021

Com o surgimento da pandemia do Novo Coronavírus, em março de 2020, e o consequente isolamento social imposto pela crise sanitária, os setores da educação se viram diante de um grande dilema: como garantir a continuidade do ensino através de um modelo não presencial sem comprometer a qualidade e excelência deste?? Depois de muita reflexão e debate, a maioria das instituições conseguiu voltar às suas atividades de maneira adaptada e, considerando as condições adversas, manteve a educação pública de pé. Agora, com o avanço da vacinação e um retorno presencial em perspectiva, temos um novo desafio: definir os limites do ensino remoto em um mundo que está cada vez mais digital e conectado.

A experiência do modelo não presencial de ensino trouxe diversos aprendizados e mostrou que a tecnologia digital é essencial, sim, para a democratização do conhecimento e melhoria de qualidade do ensino. No entanto, também deu espaço para discursos e narrativas oportunistas, vindos, em maior parte, de interesses do mercado financeiro e dos grandes grupos empresariais que dominam a educação no âmbito privado. Estes se aproveitaram do momento da pandemia e a inevitável ascensão do debate acerca do ensino à distância para pautar uma adesão quase que completa ao EAD, sem levar em consideração os pilares e os princípios nos quais são fundamentados a educação em nosso país e que podem ser gravemente feridos em um cenário onde a aprendizagem se dá integralmente de maneira não presencial.

Nesse sentido, os setores da educação devem ser bem assertivos ao definir os limites do ensino remoto e pautar um modelo cada vez mais moderno sem comprometer as vivências e aprendizagens que somente a experiência presencial nas escolas e universidades pode oferecer.

Esses limites caminham sobre uma linha que ao mesmo tempo é tênue e, ou deveria ser, também, bastante óbvia: os recursos de ensino remoto assim como todas as tecnologias digitais devem ser usadas e exploradas ao máximo desde que preservem o caráter essencialmente presencial da convivência nas instituições de educação, ou seja, que auxiliem os estudantes, professores e técnicos na condução das atividades educacionais. Que sejam usados, por exemplo, para a realização de provas, eventos e atividades que por alguma razão adversa não possam ser realizadas presencialmente (como vem sendo no caso da atual pandemia). Que possa permitir o acesso rápido a materiais de estudo e pesquisa. Que desburocratizem procedimentos administrativos e institucionais; mas que não privem os estudantes do espaço da escola e da universidade, de suas salas de aula, bibliotecas, laboratórios, espaços de convivência e socialização.

É fundamental lembrar, também, que ainda temos enormes desafios a respeito de inclusão e acesso que precedem o debate do EAD e que só serão superados com investimentos e políticas públicas que busquem tal objetivo. O cenário, no entanto, é justamente de cortes na educação e sucateamento das instituições públicas e, assim, vencer esses desafios parece cada vez mais uma tarefa árdua e a longo prazo.

Traçar os limites do ensino remoto e planejar o futuro da educação no Brasil não será uma tarefa fácil. À medida que os setores da educação incorporam e exploram os recursos digitais e de acesso remoto, que inegavelmente tem muito a contribuir e auxiliar, principalmente aos estudantes, interesses privados se utilizam da pauta de maneira oportunista para aplicar uma lógica de mercado à educação. Cabe, então, a nós barrar os avanços de narrativas distorcidas com fins não declarados e ao mesmo tempo promover uma modernização do sistema educacional com bastante cautela e amplo debate com os diversos setores da sociedade.

Por fim, a nossa constituição, em seu artigo 205, garante que a “educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho” e tal desenvolvimento, preparo e qualificação não têm como serem dissociados da experiência presencial do aprendizado e da produção acadêmica.

No contexto da educação as tecnologias digitais, sejam elas quais forem, devem servir à Ciência, à produção e à verdadeira democratização do conhecimento. Qualquer outro interesse é, não somente inconstitucional, mas também uma ameaça ao futuro do nosso país.

O estado deve assumir essa responsabilidade e construir tais políticas de avanço no âmbito educacional, inclusive garantidas pelo atual Plano Nacional de Educação. Infelizmente esse não parece ser um objetivo para o atual governo cuja agenda privatista avança cada vez mais.

Por isso, para construir o futuro da nossa educação (pautada na modernização, excelência e acessibilidade) precisamos ir às ruas, barrar qualquer tipo de investida daqueles que possuem interesse no sucateamento de nossas instituições, e clamar por um projeto político que de fato se coloque a construir esse futuro.

 

Pedro Diniz Gonçalves é estudante de Direito, coordenador do DCE da UFBA e diretor de universidades públicas da União dos Estudantes da Bahia.  

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