O atual ocupante da cadeira da presidência inaugurou, no dia quatro de fevereiro, uma instalação esportiva em Cascavel, importante cidade do interior paranaense.
Fez um discurso em tom descontraído, emendando ilações mentirosas sobre administrações passadas, fazendo ironias com duplo sentido, como é corriqueiro, proferiu bravatas elogiando seu próprio governo, seguindo a linha das falas do Ministro Lorenzonni e do Secretário Nacional de Esportes, que ele chamou de “Negão”.
A fala presidencial seguiu a lógica já conhecida de contar sua própria vida, citando a suposta condição de atleta na juventude e da excelente boa forma que ainda preserva. Jactou-se de ter enfrentado até uma facada e sobrevivido. Ato praticado por “um filiado do PSOL”, o que já está sobejamente comprovado que não procede, segundo a própria Polícia Federal.
Jair estava visivelmente à vontade, deve ter sido a vitória de seu candidato à presidência da Câmara Federal que o animava. Além de descontraído, ele fez importantes declarações sobre o que pretende adotar como medidas presidenciais, e outras tantas que exigem apreciação no congresso.
As propostas anunciadas são altamente preocupantes, pois envolvem temas delicados, como a violência cotidiana no país.
O presidente anunciou que vai mandar e/ou baixar três decretos ampliando as facilidades para comprar e portar armas. Disse-o argumentando que as pessoas têm direito a usar armas, “todas as pessoas”, chegou a dizer, depois emendou com “as pessoas de bem”.
Além desse estímulo a comportamentos estúpidos com armas de fogo, que já fazem do país o primeiro em índice de assassinatos, em escala planetária, complementou que voltará à carga com o projeto de "excludente de ilicitude”, medida que tornará mais letal ainda, a ação das polícias, especialmente a polícia militar, que ajuda a manter o Brasil no topo de mais um índice mundial vergonhoso, o de maior número de vítimas fatais de responsabilidade das estruturas policiais.
Como se essas medidas já não configurassem um pacote danoso à construção de uma sociedade menos desigual e menos truculenta, apresentou também as medidas que pretende tomar no gerenciamento do trânsito nacional, atacando a aplicação de multas de maneira genérica e defendendo a retirada total dos radares nas rodovias. Segundo ele, eram oito mil, sendo agora de dois mil, por decisão da justiça, e que assim sendo, vai trabalhar para sua total retirada. O Brasil é também campeão em acidentes mortais no trânsito.
No âmbito das medidas anunciadas estão também a aceleração das privatizações das rodovias, e segundo ele, a adoção de medidas para ajustar os editais e baixar as tarifas, além de propor a isenção para as motos. Essa última medida foi dita com um sorriso sarcástico, pois ele mesmo se orgulha de ser motociclista, e que “dava umas voltas pelo Palácio do Alvorada”, e que de vez em quando, “fugia para dar uma volta por Brasília“.
O atual mandatário atacou também a gestão passada da Hidroelétrica Binacional de Itaipú, pois, anteriormente, os lucros eram usados para projetos sociais, e que agora esses recursos irão para a infraestrutura e outros investimentos, “pois é assim que se ajuda o povo, dando emprego e educação”. Nada falou, em momento algum, sobre o desemprego cruel e crescente que campeia pelo país afora, nem nos ataques repetidos às universidades públicas, com cortes gigantescos em seus orçamentos, como a retirada de verbas para a área da ciência básica e tecnologia, uma das razões que fazem do Brasil, um país que sendo possuidor de equipamentos e instituições de altíssima qualidade, não poder, por exemplo, fabricar vacinas contra a Covid-19 com autonomia.
Como se tudo isso fosse pouco, no meio da fala, ao citar o secretário “Negão”, afirmou que os negros no governo dele estão por mérito e não por cotas, atacando uma das mais significativas conquistas qualitativas no sistema educacional brasileiro, como se aqueles/as que optam pelo sistema de cotas, ao se apresentarem para os exames de admissão, não tivessem que demonstrar o mesmo mérito escolar e notas que os/as demais candidatos/as.
Para concluir, fez algo que parecia ter escondido, como tática de precaução contra o desgaste crescente, e resolveu atacar as vacinas contra o vírus covid, que o próprio governo está sendo obrigado a importar, proferiu uma praga que desorienta parte da população menos esclarecida, ou iludida por seu palavrório, ao afirmar que “não sabe se as consequências da vacinação não seriam piores que os estragos que a doença está causando“.
Parecia que tinha recuado para se livrar das críticas, dentro e fora do país, mas não, agrediu de novo o bom senso, a ciência e a responsabilidade para com a sociedade brasileira.
A nação brasileira precisa urgentemente de mais vacinas, advindas de várias origens, e aplicação com velocidade e eficiência para conter o avanço da pandemia, e, assim, jogar para baixo a curva das infecções. Essa é a única saída. Fazê-lo em larga escala e pelo Sistema Único de Saúde, o SUS.
Quanto à doença política-viral, só muita mobilização nas ruas, nas redes sociais, articulação inteligente bem larga, e votação do impeachment. Eis a outra vacina.
*Javier Alfaya é arquiteto e membro do Comitê Central do PCdoB. Foi vereador e deputado estadual na Bahia e presidente da União Nacional do Estudantes (UNE)*
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Foto: Gilberto Junior[/caption]