Quando decidi escrever a biografia deste gigante chamado Haroldo Lima, a primeira coisa que fiz foi pedir ao próprio a autorização para levar a ideia adiante. Escrevi um breve projeto e antes mesmo de incluí-lo no sistema SIP da UNEB o submeti ao Haroldo, que leu e me fez uma serie de sugestões que foram prontamente incorporadas. Aí ele me autorizou, e somente depois disso comecei a pesquisar.
No desenvolvimento do plano de pesquisa organizei três ações prioritárias: leitura de bibliografia que contemplasse tudo o que envolvia a vida do biografado, pelo menos até a constituinte de 1988: (a fusão de famílias tradicionais da região de Caetité, a Juventude Universitária Católica, a Ação Popular, a incorporação ao PCdoB em pleno período da guerrilha do Araguaia, a chacina da Lapa, prisão, tortura, anistia, a reorganização do PCdoB na Bahia, o movimento contra a carestia, parlamento, etc.); iniciei um levantamento de fontes, contando para isso com uma força tarefa de camaradas que voluntariamente se apresentaram para ajudar assim que souberam da iniciativa; e combinei com Haroldo estabelecimento de uma rotina de conversas, sempre nas manhãs de segunda, quando passamos a trancar nossas agendas, e numa sala de zoom, contando com a ilustre presença também de Jorge Wilton, passamos a desfrutar de momentos prazerosos mergulhando nas memórias deste que é um verdadeiro símbolo que tanto inspira a todos que sonham com um Brasil socialista.
Gravamos apenas três conversas que me renderam cerca de cinco a seis horas de gravações. Em meu planejamento deveriam ter sido muito mais, no entanto, esta rotina foi interrompida no dia 01/03, quando encerramos mais cedo, pois Haroldo tinha um compromisso importante, que não me disse do que se tratava, mas imagino que tivesse se encaminhado para fazer o exame da COVID, juntamente com Solange. Depois disso, não foi mais possível repetir aquela manhã de segunda-feira.
Nossos papos foram espetaculares, falamos de sua família, da relação com seus pais, nas cidades de Caetité e Jequié; do período em que foi interno do Colégio Marista, em Salvador, época da geração Mapa e da revista Afirmação; seu recrutamento para a JUC, justamente no dia em que recebia o trote do vestibular; o inicio da militância no movimento estudantil; tudo sobre a movimentação das primeiras horas do golpe em 1964; o inicio de sua relação com Solange; relação com a Igreja; e meio a tudo isso, muitos fatos curiosos e reveladores.
Como continuar esta pesquisa sem nosso grande timoneiro? - Não somente as manhãs de segunda perderam o brilho, como esta pesquisa dificilmente conseguirá alcançar a mesma profundidade e beleza que teria, agora que perdi a minha mais preciosa fonte. Este Haroldo, que agora nos deixa, foi parte de uma geração extraordinária de homens e mulheres com tamanho desprendimento que colocaram suas vidas em risco, que ousaram desafiar a ditadura, e mais ainda, jamais desistiram de sonhar e de fazer valer cada dia de suas existências como momentos de luta para conquistar este sonho por uma sociedade mais justa e menos desigual.
Os jovens da AP pretendiam construir um novo partido unificado dos operários, e, ao estudarem a história do PCdoB, entenderam que este partido já existia. Ao ingressarem no Partido Comunista do Brasil, buscavam manter viva a chama da revolução, do socialismo, acreditando sempre de que seria possível conquistar algo melhor, mais digno para todos e todas neste mundo. Haroldo foi fundamental nesta construção!
Quando penso nisso, meu coração se enche de forças e esperanças na certeza de que a melhor homenagem a ser feita ao Haroldo, e tudo o que ele simbolizou com o exemplo que foi sua vida, é seguir lutando pela manutenção do caráter revolucionário deste partido, é manter viva a bandeira vermelha e seu símbolo, a foice e martelo cruzados, com tudo o que isto significa, é jamais perder de vistas o horizonte do comunismo!
Haroldo Lima, presente!
Viva longa ao PCdoB!
Ricardo Moreno é historiador, professor e biógrafo de Haroldo Lima.