Em uma noite de casa cheia no Cine Glauber Rocha, na Praça Castro Alves, Salvador se tornou, nesta segunda-feira (11), o centro das reflexões estratégicas para o futuro do Brasil. A capital baiana sediou a 3ª mesa do Ciclo de Debates do 16º Congresso do PCdoB, promovido pela Fundação Maurício Grabois Bahia, reunindo centenas de militantes, dirigentes e intelectuais para discutir “Mudanças estruturais no Brasil do século XXI – Base social e política para o desenvolvimento soberano”.
Com mediação da deputada federal Alice Portugal (PCdoB-BA), o debate contou com a presença de José Sérgio Gabrielli, ex-presidente da Petrobras; Diogo Santos, economista; Aloisio Barroso, médico, dirigente do PCdoB e diretor de Estudos e Pesquisas da Fundação Maurício Grabois; e Adalberto Monteiro, secretário nacional de Formação e Propaganda do partido. O encontro teve como objetivo aprofundar as Propostas de Resolução que serão debatidas no Congresso Nacional do PCdoB, marcado para outubro.
Ao longo da mesa, os palestrantes convergiram sobre a urgência de um projeto nacional liderado pela classe trabalhadora, capaz de romper com a dependência econômica e a dominação do capital financeiro. Gabrielli destacou que a burguesia nacional perdeu, desde meados do século XX, o compromisso com a industrialização e a soberania, integrando-se ao circuito financeiro globalizado. Para ele, recuperar o protagonismo do Estado em setores estratégicos é condição indispensável para o desenvolvimento.
Aloisio Barroso reforçou que soberania significa controlar câmbio, política monetária e conta de capitais. “Sem isso, permanecemos reféns do mercado financeiro internacional”, alertou. Já Diogo Santos sublinhou que a democratização do Estado deve estar diretamente conectada às demandas populares, como saúde, mobilidade e saneamento.
A financeirização foi apontada como entrave central ao progresso nacional. Adalberto Monteiro classificou como “montanhas” obstáculos como a autonomia do Banco Central e o teto de gastos, que impedem o crescimento econômico e aprofundam desigualdades. Ele lembrou que crises políticas e retrocessos — da ditadura militar ao golpe de 2016 — interromperam avanços estruturais.
Barroso e Santos também enfatizaram a necessidade de reformar o sistema financeiro, combatendo a lógica especulativa e recuperando instrumentos de planejamento econômico hoje submetidos a interesses privados e internacionais.
Para os debatedores, o protagonismo popular é peça-chave para alterar a correlação de forças. Monteiro afirmou que a burguesia perdeu a capacidade de liderar um projeto nacional e que cabe à classe trabalhadora, articulada com setores progressistas, assumir essa tarefa. Gabrielli apontou que a nova composição da classe trabalhadora — hoje concentrada em áreas como educação, saúde e segurança — exige investimentos em ciência e tecnologia.
Alice Portugal reforçou a importância de pautas concretas, como o fim da jornada 6×1, para mobilizar e engajar a população.
Com as eleições de 2026 no horizonte, os palestrantes defenderam que a vitória eleitoral não é suficiente: é preciso garantir mudanças estruturais de longo prazo. Monteiro destacou a necessidade de amplas alianças com forças populares e progressistas, enquanto Gabrielli alertou para manobras políticas e econômicas que tentam enfraquecer o governo.
Santos apontou que fortalecer relações com o Sul Global, especialmente com a China, é estratégico para a soberania brasileira e para a reconstrução do papel do Estado.
O encontro na capital baiana reforçou o papel da Bahia como espaço de formulação política e articulação militante. Para Everaldo Augusto, presidente da Fundação Maurício Grabois Bahia e coordenador da mesa, “a conjuntura de acirrada disputa contra a extrema direita e os impasses econômicos dão maior importância a este ciclo de debates”.
A atividade integra um ciclo nacional que já passou por São Paulo e Rio de Janeiro, e que seguirá para Porto Alegre e Recife, sempre com transmissão ao vivo pela TV Grabois. Em Salvador, ficou evidente que a luta por um projeto nacional soberano, democrático e inclusivo precisa unir mobilização popular imediata e visão estratégica de longo prazo para recolocar o Brasil no caminho da independência e da justiça social.