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Uldurico Pinto: A cloroquina é tóxica

14 abril, 2020

Nestes tempos de pandemia, três palavras dominam as conversas e os noticiários da mídia: coronavírus, covid-19 e cloroquina. As duas primeiras porque deixam, há meses, bilhões de pessoas, no mundo todo, confinadas em suas casas, algo nunca visto na história da humanidade. A terceira palavra, cloroquina-hidroxicloroquina, é vista, erroneamente, como a cura desse vírus.
A cloroquina e seus derivados tem efeitos extremamente tóxicos no organismo humano.
Pode causar efeitos colaterais na visão, no coração e no fígado.
Pode causar falta de coagulação sanguínea, distúrbios gastrintestinais (náuseas, vômitos, diarreia), fraqueza muscular, transtornos emocionais, erupções cutâneas, cefaleia, turvação visual, descoloração do cabelo ou alopecia e tontura.
Pessoas que tomaram o remédio relataram dores de cabeça muito fortes, perda de visão periférica e cólicas, além de arritmia do coração.
A arritmia no coração é como um problema no fornecimento de energia da banda num samba de Martinho da Vila que, alternando, tira toda a sintonia, gerando um stress, impasse e até o encerramento do show.
Há várias terapias que estão sendo testadas, mas até o momento nenhuma delas se mostrou nem melhor que a outra e nem capaz de reduzir substancialmente a mortalidade pelo coronavírus.
O governo quer usar a cloroquina, um medicamento tóxico, de forma ampla para os casos de covid -19. É uma atitude irresponsável, pois é preciso mais estudos científicos para liberar o uso em pacientes. Estão politizando a saúde da população brasileira e deixando para o médico a “escolha de Sofia” sobre os pacientes, ou seja, decidir se usa ou não a cloroquina, ou, em última análise, decidir quem vive e quem morre.
Sou médico, cursei na Faculdade de medicina da universidade federal de Minas Gerais, um autêntico “baianeiro” (metade baiano-metade mineiro), pois minha mãe era mineira e meu pai, baiano.
A cloroquina é minha velha conhecida. Ainda jovem tinha notícia dela. Minha mãe, por ter usado esse medicamento, se referia a ele de forma assustadora, após ter passado muito mal devido ao seu uso.
Prescrevi muito a cloroquina quando trabalhava como diretor e único médico no hospital municipal de Almas, uma pequena cidade de Goiás, hoje Tocantins.
A cloroquina já não fazia efeito nos casos mais graves de malária, como a plasmódio falciparum. Ela só fazia efeito nos caso de malárias mais leves, como o plasmodium vivax.
Hoje, com o grau de toxidade que ela tem, o seu uso indiscriminado para uma doença nova com a Covid-19, sem maiores estudos científicos, seria uma irresponsabilidade.
O uso da cloroquina por pacientes infectados com o novo coronavírus ainda está em fase de testes e de estudos. Não há resultados conclusivos para as pesquisas com o medicamento, usado principalmente contra a malária. Apesar de as evidências em alguns estudos indicarem que ela pode funcionar em certos casos, há alertas sobre o risco de complicações causadas pela toxicidade da droga.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) informou que, até agora, nenhum produto farmacêutico se mostrou seguro e eficaz para tratar a Covid-19.
Na contramão da principal organização de saúde do mundo, o governo brasileiro lançou uma campanha oficial em defesa do medicamento.
É uma verdadeira irresponsabilidade. Desde que assumiu, Bolsonaro vem cortando totalmente as verbas e pesquisa no país, o que levou a uma verdadeira debandada de cérebros do Brasil para outros países onde a ciência e reconhecida. Agora, o governo tenta, da maneira mais adversa possível, remediar a falta de pesquisadores para dar andamento a pesquisas que encontrem a cura para esse novo vírus que já infectou milhões de pessoas pelo mundo.
A liberação do uso da cloroquina para o tratamento da civo-19 contraria o próprio ministro da Saúde do Brasil, Luiz Henrique Mandetta, que não recomenda o uso indiscriminado de cloroquina contra o coronavírus.
Não precisa nem ler o famoso pronunciamento de Platão, O MITO DAS TREVAS. Talvez, o mais apropriado seria invocar o espírito da saudosa Dercy Goncalves para ter a sua opinião onde ela sugeriria ao governo democraticamente “clolocar” a cloroquina.
O dilema hamletiano maior seria a escolha entre ser sério e digno ou ser farsante e trair a nação brasileira.
 
Uldurico Pinto é médico e dirigente estadual do PCdoB.

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