Se nas primeiras décadas do século XX, as mulheres lutavam pelo sufrágio (1932) e pelo reconhecimento para além da subalternidade ao masculino; nas eleições de 2020, serão elas resistências e escolhas possíveis? Pensar que Salvador só teve uma prefeita e o Brasil apenas uma presidenta em 131 de republicanismo, mesmo sob as ditaduras e suas indicações biônicas, causa enorme desalento. Atualmente, 12 e 13,5% (TSE, 2016), respectivamente, ocupam cargo de vereadoras ou prefeitas. As candidaturas já constam e são reforçadas pela pressão das cotas, mas não confirmam a “política de presença” mínima. Em tempos incertos, acentuados pela crise sistêmica, teremos que observar e apreender também sobre candidaturas, representatividade e pessoas comuns.
Particularmente acredito que “comuns” sejam boas opções para confrontar as oligarquias. Vivenciamos altos e baixos nas fases republicanas, dualismos e rivalidades que não asseguraram promoção de direitos, mas ampliaram as desigualdades. Pessoas comuns que assumem pré-candidaturas fazem inúmeras formações e começam a pensar estratégias alternativas de campanha. Saem de seus lugares para entrar em uma zona muito distinta, não só partidária, mas de ações, agendas e planos que devem refletir coletividades: o bem comum.
Inúmeros são os cursos e incentivos à participação feminina na política: desde o Parlamento Feminista (Salvador) às ações do Instituto Alziras com “Mais Mulheres nas Eleições Municipais”. Ademais, parcerias com ONUMulheres, institutos vinculados às Esquerdas e ao Fórum Nacional de Instâncias de Mulheres de Partidos Políticos têm sido freqüentes.
Para pessoas comuns, decidir tomar assento, fundamentar uma proposta que seja compatível entre público e privado, não é uma opção de atividade complementar. Dedicação exclusiva e escuta ativa são basilares. E podemos nos perguntar: por que sempre os mesmos nomes e sobrenomes (títulos ou heranças políticas)? Considerando que a proposição de fazer política, sob nova perspectiva, passa pela “ficha limpa” e a transparência na esfera pública.
Se o plano de cotas for concretizado, 30% de mulheres na política representariam uma mudança nas condições necessárias para reformar o sistema partidário. O bem comum depende do enfrentamento das desigualdades – somadas pelas questões de raça, etnia, gênero e territorialidade -, da reunião de pessoas em sua diversidade para tratar de temas centrais que assolam o cotidiano. Mulheres com saberes e distintas vivências podem realizar a utopia da emancipação em política do presente. Pense nisto ao analisar os projetos políticos (legislativo e executivo) para o pleito municipal de 2020.
As contradições sociais são decididas no Parlamento.
Vanessa Cavalcanti integra o Núcleo de Estudos sobre Educação e Direitos Humanos (NEDH/UCSAL)