“Venceremos esse atraso”, diz Perpétua, nova líder do PCdoB na Câmara

À frente do quarto mandato, a deputada federal Perpétua Almeida (AC) assumiu oficialmente o comando da Bancada do partido. O nome da deputada foi chancelado pela Comissão Política Nacional do PCdoB para que lidere os parlamentares comunistas em 2020.

“Essa não é uma tarefa fácil: liderar uma bancada de esquerda em tempos tão difíceis onde a discriminação e as fake news imperam. O ministro da Educação (Abraham Weintraub) é um dos piores da história. Temos muito trabalho pela frente, mas eu confio na Bancada do PCdoB que é muito articulada e ajudará a vencermos esse atraso, que é o governo Bolsonaro”, afirmou a líder Perpétua.

Por duas vezes, ela foi a parlamentar mais votada do Acre. Em todas as eleições, foi a mais votada da Frente Popular. Mulher do povo, é professora e a 15ª filha de pai seringueiro, tendo atuado como vereadora de Rio Branco. O PCdoB foi o único partido ao qual se filiou. Ela desistiu de ser freira para se engajar na política e lutar pelas causas sociais, defendendo os direitos dos brasileiros, dos trabalhadores e das mulheres.

O líder antecessor, Daniel Almeida (BA), agradeceu a oportunidade de liderar os colegas em 2019 e oficializou a escolha da sucessora. “Perpétua é a manutenção da tradição de alternar a liderança a cada ano. Representa ainda o retorno de uma mulher a essa função. Com certeza, terá todo êxito, porque é vibrante, corajosa, valente, tendo toda competência e capacidade de liderar a Bancada”, afirmou Daniel.

A nova líder concedeu a primeira entrevista ao PCdoB na Câmara, destacando que dará continuidade a combates em favor de bandeiras como a dos direitos dos trabalhadores, da soberania nacional e do fortalecimento da democracia. Destacou ainda que haverá ampla articulação política no Congresso, para garantir melhorias no Brasil e evitar retrocessos.

A seguir, leia os principais trechos:

O que representa comandar a Bancada do PCdoB?

Perpétua Almeida – É sempre uma honra coordenar uma liderança importante, como a do PCdoB. É uma Bancada com muitos líderes e personalidades experientes nos embates da política nacional. A Bancada do PCdoB é uma das principais referências na luta dos trabalhadores por direitos, para que a gente mantenha o processo democrático no país.

Quais serão suas prioridades à frente da Liderança do PCdoB na Câmara dos Deputados em 2020?

Perpétua – O que nós precisamos fazer é primeiro dar continuidade ao trabalho que a Bancada faz, que representa um conjunto. São vários colegas parlamentares discutindo o momento político e a pauta. As principais ações da Bancada do PCdoB, e eu quero manter esse tom, referem-se à defesa dos trabalhadores, dos seus direitos e da democracia. A defesa de um Brasil altivo e soberano. Quando olhamos para a gestão Bolsonaro, vemos que é um governo que está apequenando o país por uma série de razões. É um governo que ameaça a soberania nacional, quando fala em abrir mão de empresas importantes, como a Eletrobras e a Petrobras. Quando se diminui o tamanho e o poder do Estado, você fica menor diante de outras nações, mas grande na despesa e no bolso dos trabalhadores.

Na prática, essa redução do Estado acarreta que tipo de prejuízo?

Perpétua – Diminuir o Estado brasileiro é diminuir o investimento em educação, em saúde e em segurança pública. O PCdoB quer manter essa bandeira de denúncia, de buscar saídas e soluções para o povo brasileiro, como fizemos durante a luta contra a Reforma da Previdência. Quando a gente trava a luta pelos direitos dos trabalhadores, que estão sendo punidos pelo governo, reforçamos o combate, mas também apostamos na redução de danos. A Reforma da Previdência, por exemplo, poderia ter sido muito pior. Foi a atuação da Bancada do PCdoB e de outros democratas desta Casa que fez com que o tamanho do prejuízo do trabalhador fosse menor, em comparação com a proposta encaminhada pelo governo e a aprovada posteriormente.

Qual sua avaliação sobre a política externa de Bolsonaro?

Perpétua – Bolsonaro faz uma curva descendente do que tem sido a prática no país nos últimos anos. Tínhamos soberania e altivez. Quando o governo decide se aliar a um outro país, como no caso dos Estados Unidos, a gente se apequena. A gente dá um sinal contrário à nossa tradição ao resto do mundo, inclusive internamente.

Como o Parlamento pode ajudar a reverter essa situação?

Perpétua – A Diplomacia do país está gravemente doente e sofre grandes revezes com a postura do ministro das Relações Exteriores (Ernesto Araújo). O Brasil tem se distanciado de setores e países importantes na nossa economia e exportações, para manifestar apoio único a um país num alinhamento automático. Desconsiderar a importância do Irã para o Brasil, da China, da Venezuela, da Argentina e da América do Sul é não ter um olhar para o fundamental e para a nossa vizinhança. Desprestigiar o Mercosul é querer se apresentar menor diante de outros países, sendo que o objetivo original com a criação do bloco era aproveitar essa união para ser uma fortaleza em negociações externas. O Brasil não pode abandonar aquilo em que pode crescer mais. A diplomacia tem envergonhado diplomatas, o Parlamento e as relações que o país construiu há anos.

Como será a articulação política na Câmara?

Perpétua – Nós não queremos trabalhar isoladamente, só o PCdoB ou a esquerda. Queremos trabalhar num processo amplo de defesa da democracia. Para fazer essa defesa, precisamos estar abertos e conversar com todos os democratas, inclusive com aqueles que pensam, em determinados momentos, diferente da gente. Esse é um desafio que se impõe. Enfrentar um governo que desmonta o país e acaba com os direitos dos trabalhadores requer uma unidade nacional. Essa tem sido a postura do PCdoB até aqui. E daremos continuidade a esse trabalho.

Quais os desafios para dar continuidade a esse trabalho, tendo em vista que Bolsonaro agrava a crise a cada dia?

Perpétua – Por mais que o PCdoB discorde de algumas pautas que são apreciadas e votadas nesta Casa, a Bancada tem feito um esforço para contribuir e ajudar a instituição para que a gente possa ter protagonismo na Câmara. Percebemos que o governo acaba vindo a reboque disso. Queremos manter essa disposição do PCdoB na luta interna, para barrar o que é prejudicial ao país. Faremos todo o esforço necessário e vamos buscar aprovar uma proibição da venda de empresas estatais sem passar pelo Congresso Nacional. O governo federal tenta passar por cima do Congresso. Nós queremos, entretanto, decidir aqui se uma empresa vai ser privatizada ou não. Queremos fazer o debate sobre a soberania do Brasil no Plenário da Câmara.

Qual a importância de uma mulher voltar para o comando da Liderança do PCdoB?

Perpétua – O PCdoB sempre teve, historicamente, um protagonismo muito forte das mulheres. Nos meus primeiros mandatos, lembro que éramos quase metade da Bancada. É uma Bancada que tem tido muitas mulheres como líder. Já teve Luciana Santos, a presidente do partido, Jandira Feghali, Jô Moraes, Alice Portugal, Manuela d’ Ávila, Vanessa Grazziotin. Agora chegou a minha vez como mais uma mulher líder da Bancada. A gente agradece muito, porque o PCdoB é um partido que incentiva muito a participação das mulheres nos espaços de poder e nas lutas políticas. As mulheres são incentivadas a disputar eleições. Isso ajuda muito, porque as mulheres são metade deste país. Ainda há um machismo muito enraizado na sociedade, que é visto como natural por alguns. O PCdoB tem buscado romper esta barreira, garantindo mais oportunidades para as mulheres. Esse gesto que a Bancada faz agora é significativo.

O governo Bolsonaro entra em 2020 com medidas ainda mais agressivas e tenta pressionar para aprovar essas propostas com rapidez. Como será a estratégia para combater essa situação?

Perpétua – O governo Bolsonaro, claramente, tem objetivos. Primeiro, quer reduzir direitos dos trabalhadores já assegurados na Constituição e na Consolidação das Lei do Trabalho (CLT). Outra meta é diminuir o tamanho do Estado. Quando se faz isso, o trabalhador passa a ter mais despesas com saúde e educação, por exemplo. Ele envia ou ameaça mandar projetos, como a reforma administrativa, que continua o corte de direitos, como foi feito nas reformas Trabalhista e da Previdência. Isso requer um enfrentamento imediato, com unidade das demais forças políticas do campo democrático. Uma das principais tarefas nossas é ampliar a unidade do campo de esquerda e progressista, para que possamos fazer o enfrentamento. Estamos combatendo um governo que está desmontando a Constituição brasileira, trazendo ameaças graves à soberania. Parte da sociedade ainda não percebeu isso. Tem setores da sociedade aplaudindo o corte nos direitos. Está aumentando o número de atividades com precarização do trabalho, nas quais não se tem direito nenhum.

Pode aumentar a polarização entre Bolsonaro e a Bancada do PCdoB, já que o presidente da República tem dificuldade de lidar com gestoras mulheres?

Perpétua – Da minha parte, eu vou preferir contribuir com o Brasil, denunciando os desmandos do governo Bolsonaro. Particularmente, eu tenho procurado o governo para chamar a atenção sobre problemas de segurança que o país enfrenta. Acabei de ver números divulgados pelo Ministério da Justiça. Enquanto o Acre aparece com a segunda Capital mais violenta do Brasil, que é Rio Branco, o governo Bolsonaro, por meio do ministro da Justiça, Sérgio Moro, desmonta as estruturas da Polícia Federal e da Polícia Rodoviária no Brasil, especialmente na Região Norte. Estão sendo fechados postos de fronteira, facilitando a entrada de armas e drogas, que estão indo parar nas mãos de milicianos, de traficantes, das facções, tirando o sossego e a paz das famílias. Eu não concordo com quase nada desse governo, mas precisamos sentar e discutir o país, apontando os erros dele.

 

Do PCdoB na Câmara

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